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Sofia Arriaga: Forças, resiliências e dados – a minha posição sobre a co-adopção por casais do mesmo sexo.

Submitted by on Wednesday, 29 January 2014No Comment

euA ILGA gentilmente convidou-me a gravar um vídeo, como o pediatra Mário Cordeiro havia feito, e eu gentilmente recusei, porque não sou tão bonita quanto ele, nem falo tão bem. Nem daqui a um milhão de anos. A ILGA voltou gentilmente a convidar-me a escrever um texto, um pequeno texto, sobre a coadopção por casais do mesmo sexo. Aí aceitei, já que me sinto mais confortável com a escrita, papel e caneta, à moda antiga. Mas eu que até me dou bem com ideias, papéis e canetas, dei por mim a não saber o que escrever. Podia fazer um statement e dizer que sou a favor e ponto. Tão simples. Mas senti que não seria suficiente.

Resolvi então escrever sobre o que está estudado e comprovado. Resolvi dizer-vos, por exemplo, que há uma divisão mais igualitária das tarefas domésticas nos casais homossexuais, do que nos heterossexuais; que há maior partilha de responsabilidades parentais por parte destes pais e que, inclusivamente, têm mais capacidades e perícias- skills, enquanto pais, com maior número de padrões de interacção com os seus filhos. E resolvi continuar…que recorrem menos à punição física do que os pais heterossexuais e usam, ao educar as suas crianças, mais técnicas positivas.

Resolvi escrever que não há mais filhos de pais homossexuais a serem homossexuais do que, comparativamente, em lares heterossexuais; não há mais perturbações de identidade de género, que as crianças não são menos inteligentes ou com uma personalidade menos bem estruturada ou com mais problemas psicológicos. Não há mais meninos, filhos de duas mães, a quererem brincar com bonecas ou a verem a Princesa Sofia, ou mais meninas, filhas de dois pais, a quererem jogar à bola ou a verem os Vingadores.

Resolvi escrever que as mães homossexuais procuram mais activamente modelos masculinos para os filhos, em comparação com as mães solteiras, heterossexuais; que a rede de suporte nestas famílias “especiais” é mais ampla e coesa; e ainda que as crianças com pais homossexuais aprendem a importância da tolerância desde sempre e também a necessidade de se respeitarem as diferenças individuais.

Filhos e filhas de duas mães são mais sensíveis, mais femininos, no sentido psicológico ou psíquico do termo. Curiosamente isto parece até contrariar o estereótipo, mais um, de que as mulheres homossexuais são pouco femininas. O lado feminino em cada um de nós é o que permite expressar sentimentos, assumir mais veemente a vida emocional. O lado feminino, que os homens também têm, mas que procuram negar, não transforma um homem numa mulher, só o torna mais sintónico, mais compreensivo com o sexo oposto.

Não há qualquer fundamento empírico que aprove ou suporte que há deficits no desenvolvimento pessoal dos filhos de pais homossexuais. Não há um único estudo que mostre ou indique uma só desvantagem em qualquer aspecto significativo. Sim, a qualidade da relação entre pais é sem dúvida considerada a variável mais importante. E sim, há um ponto negativo. O único ponto negativo são as percepções sociais.

Podia dizer-vos ainda que foram realizados estudos que mostram que a aceitação legal da coadopção por casais homossexuais trouxe inúmeros aspectos positivos. Espero que por cá também seja estudado o impacto positivo da mudança da lei. Será um excelente sinal.

Investigadores argumentam que a legislação que permite a ambos os elementos do par serem reconhecidos legalmente como pais da(s) criança(s) aumenta o bem-estar familiar, aumenta também o bem-estar financeiro, permitindo às crianças receberem benefícios de ambos os pais e aumenta a segurança emocional, ao assegurar ou reassegurar à criança que os pais são, de facto, ambos, os seus “verdadeiros” pais. Todos podem beneficiar ao reconhecer-lhes completamente a sua relação, que não é só de par conjugal, mas também de par parental. Serão cada vez mais vistos como “reais”, o que pode ajudar e muito na diminuição dos (ainda) estigmas e preconceitos. O direito à coadopção é um direito das crianças que lhes dá as mesmas garantias das que vivem com pais heterossexuais.

Há já largos anos que se fala desta nova forma de família. Porque não aceitar esta possibilidade sem medos ou tabus? Os estudos mostram que podemos arriscar e confiar. Os psicólogos, os psiquiatras, os psicoterapeutas, os assistentes sociais…defendem, na generalidade, esta posição. E os estudos são já muitos, tantos que só para escrever o nome dos autores, precisaria do dobro das linhas que utilizei até aqui. É que à medida que o número de crianças criadas por dois pais do mesmo sexo aumenta, aumentam também os estudos.

Podia ainda falar sobre resiliência, sobre o sentido de coragem, sobre as capacidades para lidar com a adversidade, características tão marcantes em pessoas homossexuais. Podia dizer que a invisibilidade legal de um dos pais é constrangedora, dolorosa e até embaraçosa para todos, enquanto cidadãos.

Temos de pensar em conjunto como podemos escapar a descrições fixas e negativas e saltarmos para estórias que permitam novas possibilidades. Se nós criamos a realidade a partir de práticas sociais, mudando as práticas, mudamos a realidade, porque nós vivemos num mundo com visões múltiplas, múltiplas lentes e múltiplas verdades.

Esta nova estória constrói-se em colaboração, a partir da aceitação, do perdão, da solidariedade, num mundo onde as forças, as competências e as capacidades devem ser cada vez mais valorizadas.

 

Sofia Arriaga, psicóloga, terapeuta familiar e coach. Professora Universitária e Doutorada em Psicologia Clínica pela Faculdade de Psicologia, da Universidade de Coimbra. Blogger

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