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Observador: E se a Carochinha casar com uma menina?

Submitted by on Wednesday, 16 September 2015No Comment
carochinhaE se a Carochinha casar com uma menina?
A Maria tem dois pais, o Tiago gosta de vestidos, o Teodorico tem duas mães cegonhas. Há cada vez mais livros infantis com temas LGBT. Como falar com as crianças sobre homossexualidade?
Tudo começou em 2012. Joana Estrela, hoje com 25 anos, queria concorrer a um concurso da ILGA que premiava histórias com temas LGBT. Dentro da sigla, escolheu a letra T para tratar. Daí nasceu Tiago, o menino transgénero que adora vestidos.
As  “coisas para rapazes e coisas para raparigas” já lhe faziam confusão desde cedo, até porque padrões imutáveis é coisa que nunca lhe foi ensinada. “Numa das fotos que tenho lá em casa, o meu bisavô está vestido de rapariga quando tinha mais ou menos cinco anos. Aparentemente era porque a mãe dele queria muito ter uma filha e às vezes, quando ele era mais novo, vestia-o com vestidos. O retrato da família saiu com ele vestido de menina” confessa, entre os risos que a história lhe provoca.
O livro foi escrito, ilustrado e depois publicado pela própria. Não estando sob a alçada de uma editora, o livro vive do passa-palavra e das vendas em algumas galerias do Porto, bem como numa ou noutra feira. Também pode ser encomendado pela internet. Como ela, há cada vez mais autores e ilustradores a trabalhar em livros com famílias homoparentais e com meninos transgénero.
Chegaram-lhe reações de mães e sobretudo de pessoas com a sua idade. “Lembro-me de um rapaz que me mandou uma mensagem a dizer que se lembrou dele próprio, de quando a mãe lhe comprava barbies às escondidas do resto da família quando ele era miúdo”. Situações que, embora frequentes, são pouco faladas. “Acontece muito virem ter comigo e contarem-me ‘ah, eu também tinha um primo que gostava de vestir vestidos’. Acho que toda a gente conhece alguém, mas toda a gente acha que é caso único“.
Há muitos, muitos anos, Charlotte Zolotow foi pioneira com “A boneca do William”. Em 1972, a autora lançava um livro sobre um rapaz que queria uma boneca. “Heather has two Mommies” (Heather tem duas mães) foi lançado em 1989, pela autora Leslea Newman. A partir daí, foram surgindo cada vez mais livros a pouco e pouco.
Se a sociedade tem gays e lésbicas, então essa realidade tem de estar nas histórias.Tal como os clubes de futebol, os partidos políticos ou a escola. É um reflexo natural do que é a sociedade.
Mário Cordeiro, pediatra

Os primeiros em português foram editados pela ILGA. Através de uma parceria com a Fundación Triángulo, os livros espanhóis “De onde venho?” e “Por quem me apaixonarei?” chegaram a Portugal em 2007. O primeiro conta a história de uma menina que quer saber de onde vêm os bebés. O segundo fala de um professor que diz aos alunos que um dia vão apaixonar-se, e que o amor não escolhe pessoas.
Já em 2012, o concurso “Um Conto Arco-Íris” premiou um projeto, no meio de 44, e editou-o. O vencedor foi o livro “Primeiro Cresci no Coração”. Conta a história de Lilás e de toda a família: o pai Baunilha, o pai Mel, a avó Canela e a avó Pão de Ló.
“Primeiro Cresci no Coração”. Texto de Filipe de Bruxelas e Ilustração de Pedro Rosa
Estes livros funcionam de várias formas. Por um lado, ajudam a que as crianças em famílias heterossexuais possam ter contacto com outras realidades. Depois, “é importante que os miúdos que estão em famílias LGBT possam conhecer outras famílias como as delas”, que não são a maioria na sociedade, explica Isabel Advirta, presidente da ILGA.
Isabel socorre-se de vários estudos e defende que “o que importa numa família é a relação entre os membros, e não a constituição da mesma. É a relação e não o formato da família que proporciona bem-estar”. Nesse sentido, a presidente que foi também júri no “Um Conto Arco-Íris” diz que as melhores histórias são as mais simples. “Não queremos tratados políticos nem referendos, são livros infantis. Os que mais gosto são sobre famílias reais, e aqueles em que se perceba que apaixonar-se é sempre uma coisa boa”.
O filho Matias, a mãe Marta e a mamã Mariana
Mariana e Marta estão juntas há dez anos, casadas há quatro, mães de Matias há três. O Matias nasceu da barriga de Mariana. Agora, é Marta que está grávida de 18 semanas. Vão ter uma menina. Já têm um nome.
Marta é a mãe e Mariana é a mamã. O Matias não vem da cegonha, nem de Paris, nem de uma semente de uma horta. Ele sabe disso. “Dizemos que foi a mãe Marta que pôs o Matias na barriga da mamã Mariana. No caso deste bebé, foi a mamã que pôs na barriga da mãe. Estávamos lá todos juntos”. O Matias e a irmã vêm de Barcelona, da clínica de fertilidade Eugin.
Marta, Matias e Mariana
Marta escreveu o livro infantil “Luanda, Lua”, uma história baseada na vida da família. A obra saiu em setembro de 2012, editado pela Surd’Universo. Tal como na história, Marta é surda e Luanda foi uma cadela adotada pelas duas. É a própria que conta aos leitores as peripécias da vida.
“Queríamos ter livros para os nossos filhos e para outros filhos com famílias como a nossa. Também quase não existem livros com crianças surdas. Os livros infantis são úteis para as crianças verem uma personagem igual a elas”, explica Mariana, traduzindo as respostas de Marta.
As crianças nascem preconceituosas?
Os especialistas consultados pelo Observador respondem em uníssono: não. As crianças não têm ideias feitas sobre o amor ou sobre as relações. “Os adultos e a sociedade – onde se incluem os meios de comunicação – é que introduzem esses preconceitos na vida das crianças, como o fazem relativamente à condição social, ao dinheiro, às roupas de marca ou ao ‘carrão do papá‘”, sugere o pediatra Mário Cordeiro.
O que acontece é que as crianças “reagem à diferença com curiosidade”. A partir daí, o trabalho está do lado dos outros: “a forma como reagimos ou falamos molda muito a forma como a criança vai entender esse mesmo assunto” porque “as crianças estão sempre a ver e a copiar o que fazemos“, esclarece Vera Lisa Barroso, psicóloga clínica e membro da equipa infanto-juvenil da Oficina de Psicologia.
A verdade é que as dúvidas podem começar bem cedo. Aos 3, 4 anos, começam a fazer perguntas sobre a origem: de onde vêm, como são feitos os bebés, como é que existe o pai e a mãe, entre outras. Depois, o próprio percurso vai levar a criança a questionar os modelos.
“Quando as crianças começam a frequentar o jardim infantil, há festas na escola, há reuniões, há pais a chegar. E elas começam a perguntar porque é que só vai um, porque vão os dois, porque vai a companheira da mãe ou a companheira do pai, ou porque vão dois pais”, explica a pedopsiquiatra Maria de Lurdes Candeias.
As perguntas vão surgir, seja das crianças que crescem em famílias homoparentais ou daquelas que observam essa realidade. A maioria dos casais que têm filhos são casais heterossexuais e a população de referência para as crianças são os amigos da escola, salienta a especialista. Aí, é preciso explicar de uma forma simples que há muito amor entre eles e muito amor por aquela criança. A pedopsiquiatra alerta: “Não criem o mito de que a criança apareceu do nada.” É preciso explicar que a foram buscar para cuidar dela, que houve um pai e uma mãe na origem mas que estes quiseram cuidar dela, e reforçar sempre que gostam um do outro e que gostam muito dela, tal como todos os pais e todas as mães.
O maior fator de triagem vão ser os colegas e os amiguinhos. Tal como chamam “gordo” ou “caixa de óculos”, podem dizer “não és igual a nós porque…”
Maria de Lurdes Candeias, pedopsiquiatra
Às vezes a naturalidade é o mais difícil de atingir. “A sexualidade explica-se às crianças utilizando palavras positivas, reforço positivo, valorizando as questões por mais embaraçosas que possam ser. Por vezes as crianças só querem ver como os pais reagem, porque ouviram qualquer coisa na escola ou na televisão. Não querem explicações enciclopédicas”, sugere Marta Crawford.
Por isso, conceitos como “homossexualidade”, “mesmo sexo” ou “identidade de género” devem ser introduzidos de forma adequada ao desenvolvimento da criança. “As mais pequenas terão maior dificuldade em perceber o termo ‘homossexualidade’ mas percebem facilmente ‘dois meninos’ ou ‘duas meninas’”, acrescenta Vera Lisa Barroso, ou um menino que adora vestidos e uma menina que detesta bonecas.
Os pais devem explicar que, além da família com pai, mãe e filhos, há muitos tipos de famílias: dois pais, duas mães, famílias monoparentais, famílias em que os netos vivem com os avós, com os tios e por aí fora.
Marta Crawford, sexóloga
Portanto, quando as perguntas surgirem, há que explicar que as famílias são todas diferentes. “O mais importante é que as crianças percebam que quando falamos de família, de afeto, de amor, estamos a falar de sentimentos entre pessoas, independentemente do seu género”, esclarece a psicóloga clínica infanto-juvenil.
Discurso certo há, idade não. A conversa vai acontecer quando a criança vir um beijo gay ou um debate na televisão, quando ouvir falar na escola ou quando estiver em contacto com um casal homossexual. O importante é não ignorar a pergunta nem deixar a criança sem resposta, sublinha Mário Cordeiro. Mesmo que a pergunta apanhe os pais desprevenidos, “devem dizer-lhes que se vão informar e depois voltam a falar sobre o assunto”, sugere Marta Crawford. O pediatra sublinha: “As crianças querem dos adultos apenas uma coisa: verdade, honestidade e coerência”.
Quando os pais e os professores têm dúvidas
Uns são recetivos, outros temem influenciar as crianças. A experiência aconteceu com Bruno Magina e Ana Zanatti. O primeiro é autor de “A Vila das Cores” (Escrit’orio) e a segunda é autora de “Teodorico e as Mães Cegonhas” (Objectiva). O livro da atriz foi lançado em 2011 mas as páginas continuam a dar frutos. “Ainda ontem (quarta-feira passada), inesperadamente, aqui no Porto onde estou a gravar (uma novela para a SIC), tive o prazer de ser abordada por uma senhora que me disse que este livro a tem ajudado muito a abordar esta questão junto dos alunos e dos netos.”
Os casos de felicitação vão chegando, tal como os de rejeição. “Houve diretores de escolas que rejeitaram a proposta de alguns professores para os alunos trabalharem o livro, mas houve também muitos que aderiram com entusiasmo e me convidaram a ir conversar com os alunos”.
Na história de Ana Zanatti, há duas cegonhas (a cegonha branca e a cegonha rosa) que encontram um bebé abandonado e o levam consigo para o protegerem. O Teodorico cresce e enfrenta meninos que desconfiam da família dele. “Não tens um pai como toda a gente?”, pergunta um polícia.
“Teodorico e as mães cegonhas”. Texto: Ana Zanatti. Ilustrações: Storytailors. Editora: Objectiva. 1ª edição: setembro de 2011.
Estes conteúdos ainda não serão vistos como um tema a introduzir livremente nas escolas. Com mais de 100 livros publicados, Manuela Bacelar aventurou-se na história de Maria em 2008. Decidiu escrever o que é hoje “O Livro do Pedro” (Edições Afrontamento) depois de ter visto uma reportagem na televisão sobre uma marcha LGBT. “Alguém se queixava de que não havia livros sobre o assunto”, conta. Ficou com aquela ideia na cabeça e um dia saiu-lhe. Primeiro os desenhos todos, depois o texto. A grande maioria dos livros da escritora e ilustradora estão inscritos no Plano Nacional de Leitura “Ler +”. A história de Maria e dos pais Pedro e Paulo não entrou. Não perguntou porquê.
Uma coisa é certa: falar de homossexualidade ainda custa. Porque nem todos estão no mesmo sentido. “Fui a escolas superiores de educação, para dar uma aula sobre literatura para a infância, e os futuros professores disseram-me que têm receio da reação dos pais ao apresentarem o livro na escola.” Muitas vezes, os próprios pais não se entendem sobre a questão. “Numa apresentação do livro na Fnac, uma mãe veio falar comigo e disse que queria comprar o livro. Uns minutos depois voltou: afinal não o levava porque o marido não queria“, conta Bruno Magina.
N’ “A Vila das Cores”, cada família tem uma cor diferente. Quando chega uma família nova com a cor violeta, a vila divide-se. Uns rejeitam porque detestam a cor, outros não compreendem e outros dão as boas-vindas. A questão da família homoparental não é apontada de forma óbvia. E esse pormenor também serve para explorar o pensamento das crianças.
“Quando eu mostro a imagem da família e pergunto o que é que poderá ter provocado uma reação estranha nas outras famílias, o que eles respondem é: a origem étnica diferente, os óculos, o aparelho do menino e só mais tarde é que dizem ‘ah sim, são dois homens’. Não é o mais imediato”, diz a experiência de Bruno.
“A Vila das Cores”. Texto: Bruno Magina. Ilustrações: Carolina Figueira. Editora: Escrit’orio.
O autor de 30 anos costuma fazer sessões em bibliotecas municipais. Leva um vídeo sobre o livro, lê-o às crianças e depois faz perguntas: o que gostaram mais, o que saltou mais à vista, etc. No fim, distribui um inquérito anónimo e confidencial aos pais que quiserem responder. As perguntas medem o grau de homofobia. Estas são três perguntas das dez que lá estão:
Questionário: “Será que sou homofóbico/a?”
 O seu sobrinho de dez anos quer fazer balé. Numa reunião de família, o/a senhor/a…
 Elogia a família por estimular o contacto da criança com a arte.
Comenta com alguém que sempre achou o rapaz um pouco estranho.
Fica atrapalhado/a e diz que, hoje em dia, os costumes mudaram muito.
Pede aos pais que não permitam um absurdo desses.
Imagine que precisa de contratar um/a funcionário/a. Contrataria uma pessoa transexual?
 Claro, desde que a pessoa tivesse um bom currículo.
Se a pessoa fosse discreta e se vestisse de acordo com o seu sexo, tudo bem.
Não, pois teria dificuldade de lidar com a pessoa. Que casa de banho ele/a usaria?
De forma alguma, iria acabar com a credibilidade da sua empresa.
A escola do/a seu/sua filho/a contrata um professor gay. Você acha…
 Perigoso. Tem muito medo de pedofilia.
Estranho. Só espera que o professor não seja efeminado.
Normal. Acha bem que a escola pratique valores como a diversidade e a inclusão.
Inadequado. As crianças são muito influenciáveis e podem tornar-se homossexuais no futuro.
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Se somos iguais, porque é que os casais gay antes não podiam casar?
As crianças mais crescidas, mais desenvolvidas ou com mais acesso à informação podem deparar-se com a informação de que os homossexuais antes não podiam casar. E a pergunta aguçada lá surgirá: porquê? Há que explicar que somos todos iguais, mas uns demoram mais tempo a atingir a igualdade do que outros.
Aqui, podem ser dados vários exemplos. Responde-se “explicando que antes havia uma ditadura em que não se podia criticar o governo e que milhares de pessoas foram torturadas por apenas ser contra o regime, explicando que os filhos de pessoas não casadas eram considerados “ilegítimos”, exemplifica Mário Cordeiro. Explicando que isso “tem a ver com as leis de cada país, que vão mudando ao longo dos tempos. Antes os casais também não se podiam divorciar, as mulheres não podiam votar…”, acrescenta Vera Lisa Barroso.
Mário Cordeiro também deixa uma mensagem para os adultos. “Uma coisa essencial que é preciso interiorizar: o desejo da parentalidade, como segurança da eternidade, nada tem a ver com o facto de o objecto de desejo sexual ser uma pessoa do mesmo sexo. Uma coisa é o desejo de ter filhos, outra é com quem se quer ir para a cama. Aliás, o drama dos homossexuais é exatamente esse: quererem ter filhos, como toda a gente, mas saberem que há a impossibilidade de os ter com a pessoa que amam. Isso deve ser objeto de respeito e de admiração, e não de chacota ou de rejeição”.
A cadela Luanda morreu. Teve uma doença, descoberta tarde demais. Mas a Luanda abriu a história que não pára de crescer. A irmã do Matias vai chamar-se Mia. A escolha ainda não está fechada, mas é a melhor hipótese até agora. Marta e Mariana gostavam também de adotar, tal como na história. Os projetos foram escritos primeiro. Agora a história salta para o mundo real.

in Observador, 12 Setembro 2015, por Catarina Marques Rodrigue

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