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O casamento entre pessoas do mesmo sexo liberta a Igreja

Submitted by on Wednesday, 6 June 2012No Comment

Texto de Thierry Jaillet, um pensador católico francês, no Le Monde sobre a igreja católica e a guerra à igualdade.

“Daqui a algumas semanas ou meses, o governo francês vai implementar uma das promessas do candidato Hollande: a abertura do «direito ao casamente e à adoção para os casais homossexuais». É justo. Mas lamento que enquanto católico praticante, a minha igreja, ou pelo menos a sua parte institucional, se vá pronunciar contra esta medida de igualdade e sabedoria. De facto, desde 1968 e a encíclica Humanae Vitae – criticando a interrupção voluntária de gravidez e a contraceção, – estamos habituados a que o nosso clero se intrometa mais nas nossas histórias de sexo do que na nossa espiritualidade.

Como a maioria dos franceses é a favor do casamento homossexual, o ataque por parte dos opositores moralizadores e mais ou menos homofóbicos far-se-á através da homoparentalidade. Acreditam nisso, é mesmo razoável que estas crianças coitadinhas cresçam sem referencia masculina ou feminina? Acordem, irmãos e irmãs, 2.8 milhões de crianças vivem numa família monoparental e geralmente o pai ou a mãe (a mãe na maioria dos casos) é heterossexual. Do outro lado, 40 mil crianças já vivem com dois pais ou duas mães homossexuais e não lhes foi detetado nenhum traumatismo psicológico. Todos os educadores sérios sabem que as dificuldades das crianças não advêm da orientação sexual dos pais mas dos seus meios financeiros, do seu percurso escolar e da sua integração na sociedade. Mas não irá ser unicamente com argumentos de simples razão que podemos convencer neste ponto. A homoparentalidade incomoda, pensa-se erradamente que é hereditária, contagiosa e nociva para a espécie humana. Como sair deste medo irracional que faz que mesmo os cidadãos bastante abertos de espírito digam que é preciso ir por etapas, ir devagar nas transições, distinguir casamento (hetero) e união civil (homo)? Isto por medo de incentivar a homofobia quando não há nada pior que as distinções para fortalecer as discriminações e a exclusão.

Quando somos a Igreja e nos intitulamos católicos, temos que dialogar com todos, sermos as testemunhas da mensagem do Cristo e da bíblia e não podemos ficar satisfeitos em repetir as prováveis absurdidades dos sucessores de Pedro, Pedro esse que segundo o Evangelho disse muitas enormidades que os seus irmãos não seguiram. Então: em vez de manter o medo da homossexualidade, façamo-lo recuar.

Desde o nascimento do Cristo que sabemos que a única filiação que conta não é nem de origem sexual ou reprodutiva, mas de origem adotiva. José e Maria tornaram-se os pais do Cristo porque o aceitaram como filho sem ter sido concebido através de uma relação sexual entre eles. Se José tivesse sido uma mulher, Cristo teria reencarnado na mesma. Hoje em dia, quando os pais declaram os seus filhos estes são adotados aos olhos da lei e da sociedade – e os pais passam a ser os garantes da educação dos filhos. Mas com o Evangelho vamos mais longe que brincar ao pai ou à mãe.

A família passa a ter uma dimensão maior sendo toda a humanidade. Reconhecemos Jesus Cristo com o filho do Deus Vivo (Mt 16,16) e chamamo-nos filhos de Deus e irmãos de Jesus Cristo, sejamos nós oriundos dos testículos de um pai homossexual, do útero de uma gestação de substituição, de um tubo de ensaio ou de um orfanato. O importante para nós é não sacralizar a família tradicional porque a «Santa Familia» é tudo – excepto tradicional. Em termos laicos, isto quer dizer que o que conta sobretudo é que a sociedade inteira trate bem dos nossos filhos, os eduque, os considere como eles são, filhos dos seus pais – heterossexuais ou não. Sempre em termos laicos, isto quer dizer que os jovens devem ter contacto com a vida urbana o mais cedo possível, enquanto futuros cidadãos. Nesta perspetiva, a homoparentalidade já não é um problema. O verdadeiro desafio é assegurar-mo-nos juntos que há uma parentalidade coletiva, consensual, democrática e que integre, uma socioparentalidade.

Ao longo dos séculos, a Igreja construiu uma visão sagrada do casamento, claramente para controlar a sociedade, mas também para assegurar o consentimento entre cônjuges, evitar casamentos forçados por razões patrimoniais, limitar a utilização de mulheres como objetos, abolir o repúdio, e assegurar às crianças um enquadramento educativo mínimo. As sociedades modernas e democráticas estão encarregue hoje em dia destas salvaguardas e proteções. A abertura do direito ao casamento e adoção por casais homossexuais é a última etapa desta lenta evolução.

A Igreja que estava encarregue, nos tempos bárbaros do século IX, do estado civil e regulação matrimonial, vê hoje em dia chegar o fim do seu papel administrativo e civil. O casamento homossexual, longe de por em causa o casamento e a filiação, liberta definitivamente a Igreja das suas preocupações de gestão quotidiana da sociedade e dá-lhe mais possibilidades para se concentrar na difusão da sua mensagem espiritual. Mas para isso, os crentes não podem ficar os filhos menores do “Nosso Pai que está no céu” e do “nosso Santo Padre, o Papa que está em Roma” (olha que estranho, dois pais homens na mesma familia?). Não, os batizados devem ser adultos maiores que, desde a sua idade mais tenra, como Jesus, tomam a palavra no Templo e na cidade.”

Thierry Jaillet é um pensador católico francês.
Traduzido e adaptado do texto de Thierry Jaillet no Le Monde

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