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Gametogénese in vitro, a tecnologia que tornará possível a quaisquer duas pessoas gerarem filhos biológicos

Submitted by on Tuesday, 29 December 2015No Comment

sonia-suterA gametogênese in vitro, que tornará possível que casais homossexuais gerem filhos biológicos, fará com que se questione vários conceitos ligados à família, pondera a professora Sonia Suter, da Universidade George Washington.

Em fevereiro, pesquisadores de Cambridge anunciaram a descoberta de uma técnica para se produzir óvulos e espermatozóides a partir de células comuns de adultos. Esse processo – chamado de gametogênese in vitro (GIV) – tornaria possível que dois homens ou duas mulheres gerassem os gametas necessários para gerar um bebê, que poderia então ser gestado ou no útero de uma das mães, ou numa barriga de aluguel, no caso de dois pais homens.

 

Bastante otimistas, esses cientistas de Cambridge afirmavam que essa tecnologia estaria à disposição da população em dois anos.  Sonia Suter, professora da Universidade George Washington, é mais cuidadosa quanto aos prazos para que essas técnicas sejam utilizadas em seres humanos – mas considera de suma importância que já se comece a discutir as ramificações morais, éticas e legais da gametogênese in vitro.

 

Em seu artigo “In vitro gametogenesis: just another way to have a baby?” (Gametogênese in vitro: apenas mais uma maneira de se ter um bebê?), ela discute algumas das muitas questões que essa tecnologia vai trazer. Como filhos gerados a partir de dois pais ou duas mães vão afetar o conceito de família? Essa técnica também tornaria possível que uma pessoa produza óvulos e espermatozóides a partir de suas próprias células, e em seguida gerasse um filho sem a necessidade de uma segunda pessoa. Será que isso é certo? Por outro lado, a mesma tecnologia possibilitaria que mais que duas pessoas tivessem seu código genético envolvido na concepção de um embrião. Como isso afeta, ética e legalmente, o conceito de família?

 

A gametogênese in vitro (GIV) sem dúvida será utilizada tanto por casais heterossexuais que não conseguem produzir gametas como por casais homossexuais. Mas é por seu potencial para sabotar o mais batido dos argumentos contra homossexuais – o de que duas pessoas do mesmo sexo biológico não conseguem gerar filhos – que essa técnica é particularmente interessante para a comunidade LGBT. Confira a seguir a entrevista exclusiva que o LADO BI fez, por e-mail, com a professora Sonia Suter.

 

LADO BI Quais você considera que serão os maiores desafios éticos que a GIV vai trazer para na próxima década?

Sonia Suter  Talvez o maior desafio ético que a GIV vai apresentar na próxima década seria se estamos prontos para usar essa tecnologia para a reprodução e, se sim, quando. Meu artigo levanta as questões éticas que surgiriam se a GIV puder ser utilizada com segurança para a reprodução humana, mas aponta que não sabemos quando isso será possível, se é que será. Um dos maiores desafios será determinar quando seria seguro iniciar experimentos clínicos para utilizar essa tecnologia para  a reprodução. Dadas as complexidades científicas envolvidas em se obter óvulos e espermatozóides viáveis, e dado que não temos como saber de antemão quais serão as implicações a longo prazo de se utilizar os óvulos e espermatozóides criados dessa forma, nós devemos avançar com muito cuidado.

 

Um dos argumentos mais comuns contra a homossexualidade é o de que “duas pessoas do mesmo sexo não fazem filho”, usado especialmente por religiosos. Como você acha que a GIV afetaria esse raciocínio? Será que a GIV seria capaz de reduzir o preconceito contra a homossexualidade a partir do momento em que crianças começarem a ser geradas por meio da GIV?

 

É difícil avaliar se a GIV por si só seria capaz de reduzir os preconcietos contra a homossexualidade. Se por um lado ela eliminaria um dos argumentos que leva a esse preconceito – o de que dois indivíduos do mesmo sexo não conseguem se reproduzir -, as pessoas com esse preconceito podem não ser persuadidos por esse contra-argumento porque, exatamente por esse preconceito, desaprovariam esse tipo de utilização da GIV. Por outro lado, estamos presenciando uma mudança da opinião pública com relação à homossexualidade, conforme a cultura popular normaliza os relacionamentos gays e lésbicos. A GIV poderia colaborar com essa normalização, mostrando que indivíduos dentro desse tipo de relacionamento podem escolher levar suas vidas de maneira muito similar àqueles da comunidade heterossexual ao casarem-se (e até divorciarem-se) e procriarem juntos.

 

No fim de seu artigo você discute como a capacidade de selecionar gametas para melhorar a “qualidade do feto” pode se tornar cada vez mais aceitável conforme o processo se torna cada vez mais fácil e comum. Como esse processo pode afetar a aceitação da homossexualidade?

 

Essa é uma questão bastante complexa. A homossexualidade é uma característica que, ao que tudo indica, envolve uma combinação complexa de fatores ambientais e genéticos; no entanto, muitos já vêm tentando encontrar os genes associados à sexualidade. Se a capacidade de se avaliar a propensão para os diversos tipos de sexualidade tornar-se mais refinada, os pais no futuro podem buscar esse tipo de teste e selecionar embriões com as propensões desejadas (ou sem as indesejadas). Devemos enfatizar, aliás, que muito provavelmente nenhum teste que tente selecionar geneticamente um embrião de acordo com sua sexualidade obterá resultados muito precisos, dada a complexidade dessa característica. A maneira como essas tendências se desenvolverão vão depender muito das atitudes sociais, e do quanto elas serão uniformes. Quanto mais uniformes elas forem, maiores serão as tendências para que se faça uso de algum tipo de seleção pré-natal em específico.  Isso seria preocupante na medida em que pais começarem a excluir embriões com tendências à homossexualidade. Se muitos fizerem esse tipo de esforço, é possível que o número de indivíduos com essa propensão comece a se reduzir, e que se acabe por minar os progressos que temos feito para se normalizar a homossexualidade. Como não temos ainda a capacidade de fazer esse tipo de teste pré-natal de qualquer maneira significativa, a resposta a essa questão vai depender do quanto a sociedade avançará em suas atitudes com relação aos diferentes tipos de sexualidade quando esse tipo de teste tornar-se possível.

 

Há bastante misoginia em alguns grupos dentro da comunidade gay, vinda de homens que sentem aversão por mulheres e mal conseguem esconder sua aversão por tudo que é feminino – os ditos g0ys sendo apenas o que declara esse desprezo de maneira mais escancarada. A partir do momento em que será possível gerar filhos sem qualquer participação de mulheres, você acha que esse tipo de reação vai se tornar mais intenso?

 

Antes de avaliar se a reprodução por homens gays com o auxílio da GIV, sem participação de mulheres, aumentaria a misoginia entre alguns membros da comunidade gay, eu tenho que frisar que ainda vai levar muito tempo até que esse tipo de reprodução se torne realidade. Mas, assim como meu artigo sobre GIV pretende contemplar o impacto potencial da tecnologia reprodutiva que ainda não está à disposição de seres humanos, também é válido considerar o impacto potencial da reprodução entre homens sem a participação de mulheres, se isso se tornar possível.

 

Pode-se imaginar que, para os indivíduos com esse tipo de atitude misógina, a habilidade de se reproduzir sem o auxílio de mulheres pode levá-los ainda mais longe em suas atitudes segregacionistas com relação ao outro sexo. Por outro lado, a eliminação da dependência das mulheres para uma atividade tão crucial como essa pode vir a reduzir quaisquer ressentimentos. Como essas atitudes se alterariam dependeria provavelmente de outros fatores culturais e sociais. Espera-se que, quanto mais a sociedade aceitar a comunidade LGBT, menos os membros dessa comunidade sentirão hostilidade por outros que lhes são diferentes. O que há por trás da misoginia, no entanto, é um problema complexo, e a GIV seria apenas um fator que poderia potencialmente impactar essas atitudes. Como sugeri na minha resposta à questão inicial, qualquer tipo de preconceito, inclusive a misoginia, é problemático sob a autonomia relacional.

 

Há muita gente nos EUA que afirma que a decisão da Suprema Corte que legalizou o casamento homoafetivo em 2015 é uma tentativa de se redefinir o que é “família”. Você concorda que isso não chega aos pés do tipo de redefinição do conceito de família que a paternidade coletiva pode trazer?

 

Como sugeri em meu artigo, a procriação por meio da GIV nos levaria a cada vez mais debater o que constitui uma família. Desde o início, as tecnologias reprodutivas nos impuseram essas discussões, num primeiro momento com relação às relações heterossexuais, mas cada vez mais também com as relações gays e lésbicas. Se a GIV tornar-se uma tecnologia viável para a paternidade coletiva, a discussão seria levada ainda mais adiante. Até o momento, tivemos que lidar com questões sobre a formação da família em que apenas dois pais são têm relações genéticas com o bebê. A reprodução coletiva, no entanto, tornaria possível que mais de dois pais tivessem relações genéticas com a criança, mas suas ligações genéticas seriam inferiores a 50%. Isso apresentaria questões muito difíceis quanto a quantas pessoas deveriam ser os pais legalmente reconhecidos, e quem. As formas de tecnologia reprodutiva que já existem já apresentam problemas para se decidir quem deveriam ser os pais: os indivíduos com elos genéticos, a mulher que gestou o bebê, seu marido (se ela tiver um), e o(s) indivíduo(s) que se pretendem pais. Já se questiona se uma criança poderia ter mais que dois pais legalmente reconhecidos. A reprodução coletiva apenas tornaria essas questões ainda mais complexas, já que mais que dois indivíduos poderiam ter ligações genéticas com o bebê na mesma medida, se bem que menos que os 50% que assumimos que um pai genético tem com seus filhos.

 

Em seu artigo você utiliza o modelo de autonomia relacional, que considera como a opressão de agentes externos e a opressão internalizada afeta a autonomia que cada indivíduo sobre sua vida. Como esse modelo entende a homossexualidade? Ele pode fazer algum tipo de contribuição para que haja menos preconceitos contra a comunidade LGBT?

 

Acredito que o modelo de autonomia relacional sem dúvida propõe a diminuição dos preconceitos contra a comunidade LGBT, já que ele propõe a redução dos preconceitos em geral. O preconceito contra essa comunidade, assim como todos os tipos de preconceito, tende a avaliar os membros dessa comunidade de forma estreita – nesse caso, por sua sexualidade. A autonomia relacional, no entanto, propõe que se avalie os indivíduos por completo, não por apenas uma faceta de quem são. Claro que, exatamente por causa dos interesses de privacidade e autonomia, sob a lente da autonomia relacional, são inextricavelmente moldados por nossa associação às várias comunidades de que somos parte, a associação de alguém à comunidade LGBT seria altamente relevante a sua autodefinição e autonomia. Na medida em que participar da comunidade LGBT é uma maneira de cultivar e aumentar as relações com outras pessoas, essa associação é completamente consistente com a autonomia relacional. Consequentemente, condenar uma pessoa por sua associação a essa comunidade é antitético à autonomia relacional.

 

in ladobi, 28 dezembro 2015

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