Famílias Arco-íris?

quem são as famílias arco-íris? Testemunhos e realidades.

o saber não ocupa lugar

estudos sobre parentalidades, nova investigação científica, posições oficiais de ordens profissionais, etc

Recursos

Dicas, ideias e conselhos para mães & pais, para aspirantes a mães & pais, e para outr@s educador@s

notícias

Novidades sobre a vida de famílias arco-íris, em Portugal e no mundo.

agenda

Atividades e encontros, dentro e fora de Portugal

Home » Recursos

Creches, escolas e famílias arco-íris

Submitted by on Sunday, 5 August 2012One Comment

 

Reunimos 21 pessoas, em 3 mesas, e designámos 1 facilitador/a por mesa (papel fixo). De aproximadamente 15 em 15 minutos as mesas mudaram de configuração; facilitador/a manteve-se e resumiu a discussão anterior; passámos a conversar sobre a questão seguinte. No final, após intervalo, dinamizador@s fizeram wrap-up. Aqui ficam algumas das nossas conclusões.

warming up | conclusões


15 de minutos de conversas: Como é que as amas, as creches, os jardins-de-infância e as escolas têm tratado as crianças, a/os jovens, pais e mães das famílias arco-íris?

Algumas ideias:

Estamos entre a invisibilidade e o exótico: as escolas estão formatadas para lidar com o que considerem norma (frequentemente igual a bom e importante) e veem o que consideram exceções como um problema (frequentemente igual a mau ou irrelevante).”
A ausência de questões e temas LGBT nos programas é ponto de partida para um ambiente pouco inclusivo; às vezes é mais fácil fazer um discurso inclusivo por alguém, e serem educador@es a assumir este papel é benéfico para as escolas (independentemente de ser complementado com visitas ou atividades específicas).”´
 “Existe pouca ou nenhuma receção por parte dos profissionais que lidam com crianças (professor@s, pediatras, educador@s). Falta formação, portanto: em questões de género e de orientação sexual mas também em termos de educação para a cidadania.”
Há atitudes discriminatórias – e principalmente muito rígidas – em relação aos papéis de género. Pouca tolerância para incentivar raparigas a jogar à bola e rapazes a brincarem com bonecas, ou seja, falta de capacidade de incentivar tod@s a brincarem com tudo.”

 Identificámos as escolas, na sua grande maioria, como estando mal preparadas para lidar com a diversidade social em geral, e com as famílias arco-íris em particular. Por escolas, referimo-nos aos programas; aos regulamentos; ao corpo dirigente, docente e auxiliar; às associações de pais; e demais intervenientes nos processos educativos em contexto escolar no seu conjunto.

Apontámos as exeções mais como resultado da preocupação de educadores/as em concreto e(ou) da existência de famílias que acabam por pressionar mudanças do que de orientações curriculares ou regulamentares. Estas mudança s acabam por ser felizes e aproveitadas por todas as famílias: as nossas, em que as crianças têm dois pais ou duas mães; mas também todas as outras configurações, designadamente famílias reconstituídas ou recompostas, normativas ou não.

Ou seja, a existência de famílias arco-íris e o contacto com esta realidade acaba por transformar a escola num local mais aberto à diversidade, mais universal se quisermos, nos muitos casos em que as famílias se apresentam e vão partilhando as suas preocupações educativas. Por outro lado, muitas famílias arco-íris acabam por entrevistar e escolher escolas de acordo com os seus projetos educativos e referências diretas à diversidade. Optam por aquelas que dão, à partida, a garantia de respeitar a família da criança (independentemente da composição) e de ter alguma preocupação com a inclusão de todas as famílias e com a transmissão de valores como o respeito, a igualdade e a riqueza da diversidade.

Em escolas onde estas famílias não existem de forma visível, o ambiente tende a ser menos acolhedor à diversidade familiar : a ausência das questões das famílias LGBT em manuais escolares aliada à pouca preparação dos agentes educativos acabam por erguer um muro de silêncio que compactua com a invisibilidade e discriminação.

Percebemos que não existem diretivas públicas ou, na maioria das escolas, regulamentos que apoiem e incentivem a inclusão da diversidade. Existe alguma perplexidade e atrapalhação quando as famílias questionam a escola sobre estas questões. É assumido o pressuposto familiar normativo – criança, mãe, pai – e é difícil automatizar nas atividades e no dia a dia a ideia de que os modelos familiares vão muito além desta configuração.
Extremamente comum, mesmo nas escolas que se esforçam por serem inclusivas, é a remissão para papéis de género rígidos: nas br incadeiras do dia a dia, mas também no carnaval, nas dramatizações e representações, nos livros escolhidos, etc.
Se não existe formação adequada em educadores e professores, menos ainda nos outros pais e nas outras mães, que frequentemente veiculam preconceitos e discriminam sem qualquer tipo de auto-censura. As associações de pais poderiam ter um papel importante neste aspeto, mas uma vez mais são à partida pouco recetivas, de uma forma geral, a questões que considerem ultrapassar o âmbito estritamente escolar.
As famílias das outras crianças/alun@s podem constituir um obstáculo à integração da diversidade nas escolas, embora as experiências digam que é relevante a forma como responsáveis das escolas lidam com as diferenças. Devem existir regulamentos que protejam tod@s @s alun@s, e todas as suas famílias, e que possam garantir que as escolas são locais de respeito para todas as pessoas e que as/os responsáveis têm a base necessária para poderem zelar pela tranquilidade e segurança de tod@s. É importante que não apenas @s alun@s mas também as suas famílias sejam bem-vind@s e se sintam bem na escola.

Os dias comemorativos (nomeadamente dia das mães e dia dos pais) ou algumas atividades típicas (como a árvore da família) são mais uma vez geridos de forma discricionária pelas escolas e a forma de lidarem com a ausência de um/a ou a existência de dois/duas está nas mãos d@s educador@s e da sua sensibilidade.

Pressentimos como extremamente relevante na mudança e integração plena das famílias arco-íris a questão da formação de todos os agentes envolvidos em termos de educação para a diversidade e iremos desenvolver mais esta questão nas conversas seguintes.


Mais 15 de minutos de conversas: O que é que gostaríamos que acontecesse mais nestas creches e escolas quando se trata de crianças, jovens, pais e mães das famílias arco-íris?

Algumas ideias:

Lei  de bases da educação deveria incluir a diversidade familiar. Tal seria também espelhado nos estatutos dos alunos e das crianças em equipamentos pré-escolares, de creche, amas.”
 “É necessária educação cívica e sexual desde sempre – e não apenas com assuntos LGBT.”
Era bom que as escolas não perguntassem quem são o pai e a mãe mas quem é a família daquela criança, sempre em aberto.”
Tod@s @s agentes escolares devem agir integrando”

 

A escola ideal é aquela que é realmente centrada nas crianças/alun@s, ou seja:

 

  • Parte de uma base/regulamento inclusivo e aberto à diversidade mas é flexível e adapta-se a propostas dos agentes educativos envolvidos, incluindo as famílias.
  • Respeita as características pessoas e familiares d@s alun@s, e incentiva diferentes formas de aprendizagem, respeitando as diferenças e estimulando a curiosidade e a aceitação.
  • Qualquer utilização de palavras como gay ou lésbica como insulto é contrariada, da mesma forma que rapazes e raparigas são encorajad@s a aprender e a brincar da mesma forma.
  • Cumpre a Lei, naturalmente, mas respeita as famílias, não colocando questões administrativas nem impedimentos desnecessários (ex. “tem que ser a tua mãe “verdadeira” a assinar”).
  • Tem um cuidado permanente nas representações da sociedade (nos livros, nas histórias contadas, nos filmes visionados, nas visitas de estudo….), preocupação constante em incluir diferentes etnias, tipo de família, orientação sexual, religião, incapacidade, idade… ; Inova e ensina a diversidade nos exercícios – por exemplo propõe representar uma árvore dos afetos e não genealógica, dado que é o amor o elo mais forte numa família (e não o laço biológico por si).
  • Espalha a diversidade até nos formulários, que não obrigam pais, mães e filh@s a riscar e emendar para poderem refletir a família, dado que não parte de um pressuposto familiar normativo de mãe, pai e filhos/as.
  • Respeita as famílias, aprendendo a como tratar cada pai/mãe (…) da criança no início do ano e mantendo o discurso transversalmente a colaborador@s da escola; famílias ou outras pessoas.
  • Encoraja as crianças e as famílias a participarem na vida escolar e a proporem atividades; dá espaço a cada criança de se definir e apresentar, sem criar pressões ou partir de pressupostos que as dirijam.
  • Dá valor à criatividade, estimula a curiosidade e propõe atividades de aprendizagem que passam pelos valores do respeito, da igualdade, da diversidade e da tolerância.

 

Definimos uma escola ideal: infelizmente, não existe. Pior – está longe, muito longe dos modelos escolares dominantes em Portugal.
Para podermos ambicionar escolas ideais, é fundamental lutarmos: pela formação de educador@s e outro pessoal; pela alteração de currículos de forma a incluir educação para a diversidade; pela obrigatoriedade de políticas não discriminatórias e que protejam educador@s e famílias na aplicabilidade das medidas preventivas de igualdade; e por continuar a trabalhar (como associação, como famílias individuais) nos ambientes que nos rodeiam no sentido de dotarmos as nossas crianças de um espaço onde possam crescer seguras, confiantes… e respeitadas.

 

Os preconceitos magoam as crianças, as famílias, as escolas. Como transformar as escolas em locais abertos e seguros, quando muitas das vezes as sentimos como desconfortáveis e hostis? De crescimento e partilha de questões, quando a tendência é fugir das questões incómodas? Intervindo diretamente. Formando responsáveis. Apelando à mudança de regulamentos e políticas. Exigindo mais e melhor. Exploremos estas (e outras) ideias.

Mais 15 de minutos de conversas: O que podemos fazer para que as creches e as escolas sejam mais inclusivas? Para que as crianças, jovens, pais e mães das famílias arco-íris possam sentir-se bem, participarem, sem medos?

Algumas ideias

Exigindo melhores escolas, teremos escolas melhores.”
O motor da discriminação é a invisibilidade e o desconhecimento – famílias arco-íris visíveis puxam por melhores escolas”
Dentro das famílias arco-íris não esquecer diversidade parental, também nós enquanto famílias temos papéis parentais diferentes, não somos todas iguais, nem temos que ser todos ativistas, embora fosse bom termos todos competências argumentativas, são precisas no dia a dia.”
 
“Professores podem ter mais dificuldades em falar quando não conhecem nenhuma família arco-íris, é importante contrariar o desconhecimento e potenciar as conversas, desmistificar os preconceitos contrapondo à ficção a realidade de pessoas concretas.”
É fundamental no dia a dia não deixar passar em branco situações discriminatórias, falar e explicar, daí a importância da visibilidade, que acaba por ter um efeito multiplicador.”

Muito frequentemente os pais e as mães LGBT têm de se esforçar mais para garantir que as escolas são locais seguros e que permitem uma aprendizagem tranquila e feliz para as suas crianças. Muitas famílias acabam por ser participativas nas atividades escolares como forma de conhecer, de se dar a conhecer e ir passando palavra. A ignorância é a base da homofobia e da discriminação, e as famílias arco-íris acabam por sentir na pele a necessidade de responder a perguntas e desmistificar preconceitos, por parte de educador@s e outras famílias.

Percebemos que a pressão para a não discriminação é mais eficaz quando «vem de cima»: devemos tentar que o Ministério de Educação emita regras de não discriminação e de abertura à diversidade; mas também intervir nos regulamentos e projetos educativos. Diretivas superiores por um lado descansam as famílias arco-íris, por outro dão base à escola para integrar atividades, ultrapassando eventuais dificuldades com outros pais ou mães. Em caso de ser questionada, a escola pode facilmente explicar: “Está no projeto educativo, faz parte dos nossos valores, defendemos a diversidade e pelo respeito.”

Que podemos fazer enquanto família de uma criança ou jovem numa escola específica?

O bem estar d@s filh@s num espaço onde passam tanto tempo e onde aprendem tantos dos fundamentos da sua vida é primordial. Uma escola acolhedora e “centrada n@s alun@s” é uma melhor escola para todos e todas: famílias, crianças e jovens, educadores, professores, dirigentes e outr@s profissionais. Sobre os nossos ombros está alguma responsabilidade e o caminho não é necessariamente fácil. Percebemos que a partilha de ideias, experiências, materiais e recursos ajuda e fortalece as famílias, cada família, a abrir o seu próprio caminho, na sua zona de conforto, com a visibilidade com que se sentem confortáveis. Nem todas as famílias querem ou têm ferramentas para «dar a cara», pelo que é fundamental encontrarmos e formarmos várias pessoas que o possam fazer não por nós, mas connosco.

No dia a dia, é importante contrapor a realidade ao silêncio, e não deixar passar discriminações, seja de que tipo forem.
Podemos sugerir atividades concretas a educador@s e professor@s; doar livros, filmes e jogos que reflitam os nossos valores (igualdade, respeito, diversidade) e as nossas famílias; propor alterações ao regulamento; alertar a escola para pequenas alterações (dias dos pais, dias das mães, do singular ao plural); propor idas às escolas de quem trabalha nesta área (famílias, associações, bons profissionais), estimular workshops com profissionais daquela escola.

Mas para que as ações do dia a dia sejam menos complexas, é importante haver – a nível associativo, já que é neste âmbito que nos centramos  – um trabalho que forneça as bases para quem quer ajudar a transformar a escola numa escola ideal.

Que podemos fazer enquanto associação que trabalha questões deigualdade e diversidade familiar?

As escolas devem ter políticas sólidas anti-bullying, bem como sistemas eficazes para registar e resolver questões que surjam.
A formação profissional e académica de educador@s tem que incluir temas como a diversidade e incorporar representações de vários tipos de famílias, incluindo as famílias arco-íris.

Também fundamental é que os currículos escolares contenham áreas como educação para a cidadania e educação sexual.
Estas são três questões-chave que implicam um trabalho de fundo que deve ser sistemático e dirigido, envolvendo parcerias sólidas

É necessário haver materiais a que as escolas que querem avançar no sentido de acolher a diversidade possam recorrer. O cartaz “Como é a tua família?”, da ILGA Portugal, é um ótimo ponto de partida para escolas e creches com crianças mais novas. Há muitos livros infantis que retratam já a vida de diferentes famílias, que contrariam papes de género rígidos, que estimulam as crianças a serem mais respeitadoras da diferença, mais inclusivas, melhores. Há jogos, filmes, músicas que podem ajudar. É necessário ampliar e divulgar estes recursos. Os primeiros passos estão dados, na área “recursos” do site das famílias arco-íris, mas é preciso desenvolver e melhorar sempre este trabalho, eventualmente pensar noutras formas que não apenas online de disseminação.

Mas é necessário também lutar por mais e melhores recursos. Desde logo os manuais e livros obrigatórios; os incluídos no Plano Nacional de Leitura; e a formação dos agentes educativos.

É fundamental existir um trabalho de procura ativa de espaços e momentos para conversar sobre as famílias arco-íris e a diversidade familiar em geral em ambiente escolar, eventualmente capacitando as famílias para o fazerem nas escolas que frequentam; mas também estabelecendo parcerias e formando profissionais, delineando um programa formativo básico e oferecendo este serviço a profissionais que queiram acolher a ideia.

Apontámos a escola primária como a fase de ensino ideal para investir: existe um/a só professor/a; há menos homofobia enraizada nas crianças ainda pequenas; e os currículos são diversos facilmente integram questões de educação para a diversidade.

E fechando as nossas conversas…

Quando o ambiente escolar é hostil mais facilmente as famílias se tornam invisíveis; pela positiva, quanto mais acolhedor é o ambiente numa escola, mais seguras estão todas as famílias – e todas as crianças. Deve ser este o nosso objetivo.

O silêncio, fuga frequente para lidar com questões “desconfortáveis”, pode ser tão poderoso como uma frase hostil. A cultura portuguesa dominante tende frequentemente para manter o silêncio, para “não falar disso”, para manter as famílias na invisibilidade. Mas as crianças leem o silêncio, o desconforto, a discriminação.

Como mães, pais, cuidador@s de crianças, estamos preocupad@s com o seu bem-estar e a sua integração plena nas escolas. Sabemos o que queremos das escolas, e que está longe de ser a regra. Se há passos que podem ser dados por nós, individualmente, como famílias, outros precisam de apoio comunitário e de parcerias; outros, ainda, de recetividade do Estado, que terá que compreender que apenas tod@s junt@s poderemos melhorar todas as escolas.

As nossas filhas e os nossos filhos merecem todo o respeito, todas as oportunidades de felicidade: e não deixaremos que os preconceitos e a discriminação nos vençam.

Leia os documentos em formato pdf:  warming up | conclusões

uma ideia »

  • famílias arco-íris » ILGA Portugal em Atenas: escolas, famílias e diversidade acha:

    […] Nos passados dias 8 e 9 de novembro, em Atenas, e no âmbito do projeto europeu “Being an LGBT parent as an experience of democracy and active citizenship”, representantes da ILGA Portugal apresentarem algumas das conclusões do encontro “Creches, escolas e famílias arco-íris“. […]

Partilha as tuas impressões!

Escreve o teu comentário. Podes fazer trackback do teu site ou subscrever atualizações dos comentários subscribe to these comments via RSS.

Partilha todas as boas ideias. E enterra as outras :)

Podes usar as seguintes tags:
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>

Este blog aceita Gravatar. Arranja um aqui!.