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As Experiências de Crianças e Jovens com Pais Gays ou Mães Lésbicas – uma Abordagem Inicial à Revisão das Evidências

Submitted by on Sunday, 10 March 2013No Comment

O texto aqui apresentado é uma síntese do relatório “The Experiences of Children with Lesbian and Gay Parents – An Initial Scoping Review of Evidence”, publicado em 2008. Este relatório sintetiza os resultados de oito estudos e é fruto de uma recomendação do grupo de trabalho Os corações e mentes LGBT [“The LGBT Hearts and Minds Agenda Goup”, no original]. O documento foi elaborado por um grupo de investigação social do Governo Escocês, the Scottish Government Social Research, e o documento original pode ser consultado em www.scotland.gov.uk/socialresearch.

Introdução

Fundamento. O grupo de trabalho Os corações e mentes LGBT foi estabelecido a partir de elementos representativos das comunidades LGBT escocesas, em 2006, e elaborou um documento no qual se apresentavam ideias práticas para mudar as atitudes da população face a pessoas LBGT. O Governo Escocês respondeu positivamente à maioria das recomendações, sendo uma delas a condução de investigação relativa às vivências de crianças e jovens com pais gays ou mães lésbicas. O presente relatório é a resposta do Governo Escocês a essa recomendação.

Objetivos. O objetivo global do trabalho foi efetuar uma revisão da literatura relativa às necessidades e experiências de crianças e jovens com pelo menos um pai ou uma mãe que se identificasse como lésbica, gay, bissexual ou transgénero, assim como avaliar as atitudes perante este género de agregado familiar. Não obstante o propósito inicial, os artigos selecionados focaram-se predominantemente nas vivências das crianças e jovens com pais gays ou mães lésbicas.

Resultados da procura de artigos

Locais de investigação. Oito estudos relevantes para esta revisão foram selecionados para a revisão (Barrett & Tasker 2001; Clarke et al 2004; Dunne 1998; Fairtlough 2008; McIntyre 2007; Rivers et al 2008; Saffron 1998; Tasker & Golombok 1998). O propósito deste trabalho era focar-se em estudos efetuados no Reino Unido e publicados nos 10 anos anteriores. No entanto, dois estudos utilizaram amostras do Reino Unido, dos Estados Unidos da América e da Nova Zelândia.

LGBT temas e focus. Quatro estudos focaram-se exclusivamente na parentalidade lésbica e um na parentalidade desempenhada por homens gays ou bissexuais. Dois abordaram as experiências de criança e jovens e um centrou-se nas barreiras e facilitadores da inclusão de alunos LBGT nas escolas. Os estudos centraram-se sobretudo na perspectiva dos pais e mães, ou na perspectiva crianças e jovens; um estudo focou-se na visão dos professores.

Métodos de investigação. Questionários e entrevistas constituíram-se como os métodos de investigação mais utilizados. No entanto, outros métodos, como a análise de documentários televisivos (Clarke et al 2004) e a análise de histórias de vida também foram utilizados (Fairtlough 2008).

Dois estudos utilizaram a metodologia comparativa (Rivers et al 2008; Tasker & Golombok 1998). Este tipo de metodologias tem a vantagem de aumentar a validade interna do estudo, porém tem sido alvo de críticas. Alguns autores afirmam que esta metodologia posiciona a heterossexualidade como a norma pela qual outras formas de parentalidade devem ser avaliadas (Clarke, 2000). Assumindo-se assim, de forma errónea, que a orientação sexual é uma característica decisiva na parentalidade e, simultaneamente ignorando-se outras formas de “fazer família”( Fairtlough 2008; Stacey & Biblarz 2001).

Limitações. As principais limitações apontadas a cinco dos estudos selecionados é a utilização de amostras de conveniência. Ainda que seja um método frequentemente utilizado dadas as dificuldades em recrutar populações “invisíveis”, o uso deste método limita a representatividade e, consequentemente, a generalização dos resultados (Clarke et al 2004; Dunne 1998; Stacey & Biblarz 2001). Outra limitação apontada é os estudos se basearem em autorrelatos, os quais, por sua vez, podem apresentar imprecisões (devido por exemplo a recordações fracas dos acontecimentos ou má interpretações das questões) (Cowan & Plummer 2003). Estas imprecisões podem reduzir a consistência e validade dos resultados (Wight & West 1999). Adicionalmente alguns estudos focaram-se unicamente nos testemunhos dos pais ou das mães, não havendo forma de assegurar que o que é reportado corresponde a um “verdadeiro” reflexo das experiências das crianças e jovens (Tasker & Golombok 1998). Tendo em mente estas limitações, na próxima secção serão apresentados e discutidos os principais resultados observados.

Para um maior conhecimento relativo aos estudos (autores, âmbito, métodos, referências) incluídos nesta revisão, recomenda-se a leitura do relatório na íntegra.

Revisão dos resultados

Os resultados estão organizados em experiências vividas dentro do lar e vivências em outros contextos. É ainda considerada a fonte de informação: mães lésbicas, pais gays ou bissexuais ou crianças e jovens.

Experiências dentro do lar – Dinâmicas parentais dentro dos lares de famílias lideradas por lésbicas e gays

Parentalidade lésbica – perceção das mães. Dois estudos analisam as dinâmicas parentais de famílias lideradas por lésbicas (Dunne 1998;Tasker & Golombok 1998), um outro analisou a divisão do trabalho remunerado e doméstico (Dunne 1998) e um outro comparou o papel das mães não-biológicas (doravante designadas por mães de afeto) com o papel dos pais em famílias heterossexuais (Tasker & Golombok 1998).

Os resultados destes estudos sugerem que o cuidado das crianças parece ser partilhado de forma mais equilibrada entre as parceiras lésbicas do que em casais heterossexuais. Não obstante, as relações entre pai-criança e mãe de afeto-criança pareceriam ser pautadas pelo carinho e afeto, e a qualidade da relação com este “segundo” progenitor não parece estar relacionada com o seu sexo (Tasker & Golombok 1998).

O estudo de Dunne (1998) sugere que as mães lésbicas esforçam-se por criar e manter extensas relações afeto e amizade, constituindo-se amplas famílias de afeto, que prestam apoio e auxiliam no cuidado dos seus filhos. As participantes mencionaram que nestas redes de apoio à criança estão frequentemente envolvidas diversas pessoas do sexo masculino. Na medida em que o dador de esperma é conhecido e envolvido na família, frequentemente estes homens participam na vida das crianças assumindo o papel de “tio” ou mesmo um papel parental mais ativo.

Neste último estudo também se observou um maior balanceamento entre trabalho remunerado e o trabalho doméstico em casais de lésbicas do que em casais heterossexuais. O que resulta numa maior disponibilidade de tempo por parte das mães lésbicas, comparativamente às mães heterossexuais, para estar de forma relaxada com as crianças. A parentalidade lésbica é concebida como uma integração de cuidado parental e trabalho remunerado. É sugerido que as mães lésbicas estão mais dispostas, comparativamente com os pais heterossexuais, a comprometer ou fazer ajustes no seu trabalho remunerado de modo a estar mais envolvidas no cuidado parental (Dunne 1998).

Parentalidade gay – perceção dos pais. O estudo de Barrett e Tasker (2001) centrou-se nas circunstâncias parentais de mais de uma centena homens gays ou bissexuais. Os resultados revelam que a grande maioria dos pais estava envolvido na tomada de decisões relativas ao cuidado dos filhos, sendo este tipo de decisões partilhadas de forma equitativa com as mães. O estudo revela ainda que 60% das crianças e jovens conheciam a orientação sexual dos seus pais, sendo que em 43% dos casos tinham sido informados diretamente por estes. Adicionalmente, os pais gays percecionaram que as suas filhas reagiam de forma mais positiva e simpática à sua orientação sexual do que os seus filhos.

Parentalidade lésbica e gay – perceção das crianças e jovens. O estudo de Fairtlough (2008) analisou os testemunhos publicados de 67 jovens adultos que cresceram com uma mãe lésbica ou pai gay. Os resultados do estudo sugerem que muitos jovens experienciam atos homofóbicos dentro do seio familiar. Estas situações geralmente incluíam rejeição, comentários indesejáveis, uso da religião como arma ou ameaça de restrição de custódia parental. Não obstante estas situações, os testemunhos das experiências da parentalidade lésbica ou gay eram predominantemente positivos. Os jovens faziam uma clara separação entre os comportamentos e a sexualidade, nunca condenando esta. De um modo geral, os jovens afirmaram que a sexualidade dos pais e das mães não determina a capacidades destes para ser bons pais ou boas mães, sendo que os problemas vividos derivavam das atitudes negativas de outros.

Experiências fora do lar

Escola

O estudo de Rivers e colaboradores (2008) demostrou que os alunos com mães lésbicas não apresentavam resultados diferentes dos alunos com pais do sexo-oposto no que se refere ao nível de vitimização sofrida, dimensões do funcionamento psicológico, nível de preocupações habituais da adolescência ou o possível uso de suporte social de família e amigos. No entanto, diferenças foram observadas na possibilidade de uso de mecanismos de apoio dentro do sistema escolar, indicando que as crianças com mães lésbicas tinham menor probabilidade de recorrer ao apoio prestado por professores, ou outros agentes escolares. Com base nestes resultados é sugerido que os professores precisam de aumentar o seu conhecimento relativo às necessidades destes agregados familiares, de modo a poder prestar um apoio mais adequado.

McIntyre (2007) reitera esta necessidade e afirma ainda que no sistema escolar a noção de família é regulada, sendo apenas reconhecidos os agregados com casais do sexo oposto, ou famílias monoparentais. Observa-se um silenciamento da diversidade sexual nas escolas, acreditando-se que a sexualidade se deve manter no foro privado. Aos professores parecem faltar competências para discutir esta diversidade e não é compreendido que este silenciamento é nocivo para os alunos LGBT.

Vantagens, Atitudes e Preconceitos

Vantagens de ter uma mãe lésbica ou pai gay. Os participantes do estudo de Saffron (1998) declararam que ter uma mãe lésbica levou a que desenvolvessem uma maior consciência relativamente ao preconceito e aceitação da diversidade. Também no estudo de Barrett e Tasker (2001) os pais gays percecionaram que as suas filhas são mais tolerantes em relação a outros, comparativamente com os seus filhos. Os pais percecionam ainda que os seus filhos e filhas experienciam poucas dificuldades que possam ser associadas à sua orientação sexual (Barrett &Tasker 2001).

Atitudes e preconceitos de outros. Algumas evidências sugerem que muitos dos problemas vividos pelas crianças e jovens com mães lésbicas ou pais gays decorre das perspetivas negativas de outras pessoas. Dos 67 testemunhos analisados no estudo de Fairtlough (2008) apenas quatro pessoas afirmaram que a homofobia lhes tinha causados dificuldades, porém perto de metade dos jovens tinham ouvido comentário negativos ou tinha vivido acontecimentos de violência homofóbica por parte de outras crianças e jovens ou por parte de outros pais. O preconceito foi vivido em vários domínios, desde programas da comunicação social até na elaboração de acordos judiciais (Fairtlough 2008). Num outro estudo com pais gays, estes percecionaram que o nível dificuldades sofridas relacionadas com a orientação sexual parental era baixo. Para as crianças que experienciam dificuldades, estas relacionavam- se com manter a família em segredo, ser gozado pelas outras crianças ou sentir-se diferente (Barrett &Tasker 2001).

Alguns autores afirmam que os relatos de bullying homofóbico denunciam a necessidade de negociação num contexto social e político heterossexista (Clarke et al 2004; Fairtlough 2008). É sugerido que alguns jovens escondem o que sofreram de modo a proteger os seus pais do preconceito. A existência de bullying homofóbico é muitas vezes usada para debilitar as famílias de lésbicas e gays. O reconhecimento destas situações pode ser usado por aqueles que se opõem à parentalidade lésbica e gay para reiterar a inadaptação de pessoas LGBT para a parentalidade. Segundo Clarke e colaboradores (2004), ao lidar com este dilema, as mães lésbicas e pais gays podem construir as suas perspetivas de modo a minimizar e normalizar o bullying, afirmando, por exemplo, que “as crianças são cruéis de qualquer forma”.

Conclusões

Os resultados desta revisão sugerem que as mães lésbicas e pais gays proporcionam ambiente familiares aos seus filhos que envolvem numerosas relações de afeto e de apoio (Barrett & Tasker 2001; Dunne1998). Os estudos apontam ainda para uma partilha mais igualitária das responsabilidades domésticas e laborais entre casais de lésbicas do que em casais heterossexuais (Dunne 1998; Tasker & Golombok 2008).

A revisão sugere que os jovens percecionam vantagens em ter mães lésbicas ou pais gays, nomeadamente no aumento da consciência relativa ao preconceito e compreensão relativa à diversidade (Barrett & Tasker 2001; Saffron 1998).

No que concerne ao bullying e preconceito, os pais gays e mães lésbicas consideram que as experiências dos seus filhos não são diferentes das de outras crianças. No entanto, como é sugerido por uma autora, estes pais e estas mães podem também incorrer numa tentativa de minimizar e normalizar o bullying.

Alguns autores fornecem explicações a esta minimização do bullying. Apesar de os autores sublinharem que a investigação não tem evidenciado diferenças no desenvolvimento das crianças de famílias lideradas por lésbicas ou pessoas heterossexuais, a parentalidade heterossexual tem sido considera a norma, pelo qual outras formas de parentalidade são julgadas. Assim, perante este tipo de discriminação os pais podem sentir-se compelidos a afirmar que não há diferenças entre os níveis de bullying vivido pelos seus filhos (Clarke et al 2004; Fairtlough 2008; Rivers et al 2004; Safforn 1998; Stacey & Biblarz 2001).

As perceções das crianças e jovens relativas ao seu crescimento com uma mãe lésbica ou pai gay são predominantemente positivas. A sexualidade não é vista como determinante da qualidade da parentalidade e a vitimização sofrida deve-se aos preconceitos e atitudes negativas de outras pessoas (Fairtlough 2008).

No que concerne à investigação, os estudos não se deveriam focar unicamente na orientação sexual e identidade de género e as suas implicações no desenvolvimento das crianças, usando famílias de sexo oposto como norma. É sugerido que os estudos comparativos deveriam considerar as dinâmicas familiares de forma mais abrangente, tendo em atenção não só o modo de formação das famílias (recasamento, adoção, divórcio) mas também considerando as atitudes, valores e comportamentos de cada membro do casal (Stacey & Biblarz 2001).

Por final, na leitura deste documento dever-se-á ter em mente que este relatório foi baseado na revisão de apenas oito artigos e não abarca toda a literatura relevante nesta área, tendo-se adicionalmente em consideração as limitações apontadas anteriormente.

Recomenda-se a consulta do documento original (www.scotland.gov.uk/socialresearch) para acesso às referências bibliografias citadas.

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