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A resposta de Fernanda Câncio à RR

Submitted by on Tuesday, 21 January 2014No Comment

Vale a pena ler o texto de Fernanda Câncio, publicado no jugular e dirigido à rádio renascença.

“chegou ao meu conhecimento uma ‘nota de abertura’ da rádio renascença, que é, na linguagem da emissora da igreja católica portuguesa, uma nota editorial, da responsabilidade da direcção — composta por graça franco, pedro leal, raquel abecasis — ou mesmo, fui informada, do conselho de administração (parece que na rádio renascença os administradores também escrevem editoriais).

e diz a nota o seguinte, logo a abrir:

fernandacancio ‘Nos últimos dias, e para justificar a adopção de crianças por pessoas do mesmo sexo – a chamada co-adopção –, têm sido invocados casos particulares e excepcionais.’

portanto, para a rádio renascença, há pessoas ‘do mesmo sexo” (que elas próprias, portanto?) e pessoas de sexo diferente (diferente do delas próprias, portanto? deve ser giro e dar jeito, isso de a própria pessoa ter sexo diferente dela própria. há muita gente dessa na renascença? podemos ver fotos? que tal um calendário tipo o dos bombeiros de setúbal?).

e portanto para a rádio renascença as pessoas de sexo diferente adoptam crianças; as do mesmo sexo co-adoptam.

o estranho é que segundo a renascença as pessoas do mesmo sexo são casos particulares e excepcionais; dir-se-ia que é precisamente o contrário que se verifica, mas vai-se a ver e na igreja católica a maioria das pessoas são de sexo diferente delas próprias e daí o viés da perspectiva.

mas a estranheza não acaba aqui: segundo a renascença, toda esta conversa é sobre a lei e o referendo da co-adopção. ora, a última vez que verifiquei, a lei portuguesa permite a adopção (sem ‘co-‘) a pessoas singulares e nada diz sobre serem do mesmo sexo ou de sexo diferente. como, de resto, já agora, nada diz nem pode dizer sobre a respectiva orientação sexual (se dissesse, isso seria inconstitucional, imagine-se, por atentar contra o princípio da igualdade e também contrário à convençãoo europeia dos direitos humanos, como o tribunal europeu dos direitos humanos já fez notar, ao condenar a frança por impedir uma lésbica de adoptar individualmente uma criança).

ou seja, a lei portuguesa permite, e há muito, que pessoas singulares, independentemente do sexo (mesmo ou diferente, segundo a terminologia tão peculiar da renascença), adoptem (de adopção plena) crianças. e a lei portuguesa, como os tribunais portuguesas, entrega crianças a casais do mesmo sexo, como de sexo diferente, para que as cuidem. suponho que tudo isto que toda a gente sabe (ou deve saber, porque é público e notório) será uma novidade para a direcção da renascença, que até passa por ser composta por jornalistas, mas, lá está, ninguém é perfeito e estou cá para ajudar.

daí que quando a nota de abertura diz ‘O que mais importa é saber se, por princípio, uma criança deve ou não deve ser educada por um pai e por uma mãe‘ a pessoa minimamente informada fica mesmo baralhada. então não querem ver que a rádio renascença começa por falar de categorias de pessoas ‘do mesmo sexo’ e de ‘sexo diferente’ e de repente passa para ‘um pai e uma mãe’? como é que isto aconteceu? e esse pai e essa mãe são do mesmo sexo ou de sexo diferente? por exemplo, uma mãe do mesmo sexo pode adoptar com um pai de sexo diferente? e a inversa, será possível? e se a mãe for do mesmo sexo e o pai também? tudo isto merece maior estudo, parece-me. até porque, diz a renascença, ‘o papel de um pai só pode ser desempenhado por um homem; tal como a maternidade tem características que só uma mulher pode assumir e pôr em prática‘, sem esclarecer qual o sexo: se o mesmo, se diferente, e sem nos responder a esta questão premente: se a lei em portugal não proibe as famílias monoparentais e até permite adopção singular, isto virá a que propósito exactamente? querem fazer um referendo sobre famílias monoparentais, é isso? querem proibir a adopção singular? descosam-se, vá.

mas nada: a nota abre e fecha sem nos tirar desta inquietação de saber o que raio a move. diz a conclusão: ‘Não se trata de discriminar ninguém pelas respectivas inclinações sexuais; trata-se apenas de reconhecer e identificar a natureza e de a aceitar, como ela é e será. Por mais que num momento da história tudo se faça para a desmentir e contrariar.’ ora a natureza, como é e será, isto tem o quê a ver com adopção, mesmo? adopção não será exactamente resolver o que a ‘a natureza’ não resolve, tipo, adoptar crianças órfãs ou que a família biológica rejeitou? é que ia jurar. como ia jurar — aliás juro — que a co-adopção não é, como escreve a direcção editorial, portanto jornalística, da rádio renascença, ‘a adopção das pessoas do mesmo sexo’; é mesmo a adopção por parte de um membro de um casal constituído do filho (biológico ou adoptado) do outro membro do casal. a co-adopção pode acontecer num casal de pessoas de sexo diferente e num casal de pessoas do mesmo sexo. na maioria dos países da europa é assim: em portugal está interdita em casais do mesmo sexo, o que significa que nesses casais de dois pais e duas mães só um dos membros é responsável legalmente pela criança.

portanto, caras pessoas (do mesmo sexo ou diferente, é indiferente) que escreveram esta nota de abertura, não está em causa na lei da co-adopção ‘se por princípio uma criança deve ser educada por um pai e uma mãe’; o que está em causa é gente cruel e preconceituosa e ignorante, como quem escreveu esta nota, querer impedir crianças que vivem com casais do mesmo sexo de gozarem de toda a segurança e protecção jurídica de que gozam as crianças que vivem com casais de sexo diferente, e mentir para fazer crer que se trata de outra coisa qualquer.

mentir já não é pecado, por essas bandas? ou acreditam tanto em deus e nos respectivos mandamentos como eu e a única coisa que vos move é meter o nariz na vida dos outros e fazê-los infelizes, como provavelmente vocês são?”

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