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A instrumentalização da (pseudo) ciência

Submitted by on Monday, 17 June 2013One Comment

Jorge Gato

Não se pode acusar estudos sérios de serem uma espécie de efabulação de activistas LGBT e contra eles opor-se trabalhos sem nenhum cuidado científico

O debate a que temos assistido sobre a lei da co-adopção tem sido caracterizado por uma troca de argumentos por vezes ruidosa, que em nada contribui para o esclarecimento do assunto em questão. Pelo menos do ponto de vista da Psicologia. Tendo realizado um doutoramento na área da homoparentalidade, entendo que posso dar um contributo menos “inflamado” e informativo para esta discussão. Sou, aliás, a tal obrigado pelo Código Deontológico que rege a minha profissão, de acordo com o qual: “Os investigadores não fabricam resultados, incluindo invenção, manipulação ou apresentação selectiva de resultados e corrigem publicamente erros encontrados” (Ordem dos Psicólogos Portugueses, 2011, p. 29.). Sendo assim:

1. É falso que o consenso actual sobre a ausência de diferenças entre heteroparentalidade e homoparentalidade corresponda a uma espécie de delírio de um grupo de activistas. Estudos psicológicos de carácter quantitativo ou qualitativo, transversais ou longitudinais, com amostras de conveniência ou probabilísticas, convergem suficientemente nos seus resultados: são mais as semelhanças do que as diferenças entre as duas configurações familiares. É tamanho o consenso que, com base nestas investigações, várias associações profissionais se pronunciaram sobre o assunto. Veja-se, por exemplo a tomada de posição da Associação Americana de Psicologia (maior associação do mundo de clínicos e investigadores na área da psicologia, com cerca de 137 000 membros): “a investigação mostrou que o ajustamento, o desenvolvimento, e o bem-estar psicológico das crianças não estão relacionados com a orientação sexual dos pais e que os filhos das lésbicas e dos gays têm tanta probabilidade de se de-senvolverem saudavelmente como os seus congéneres educados por pais heterossexuais” (Paige, 2005, tradução nossa, retirado dehttp://www.apa.org/about/policy/parenting.pdf). Mais recentemente, a American Academy of Pediatrics (associação com cerca de 60 000 afiliados, isto é, a larga maioria dos pediatras que exercem nos EUA) reiterou a sua posição: “Com base numa exaustiva revisão da literatura científica, a AAP afirma que o bem-estar das crianças é muito mais afectado pelas suas relações com os seus pais, pelo sentimento de competência que os seus pais têm, e pela existência de apoio social e económico para a família, do que pelo género e orientação sexual dos seus pais” (Siegel & Perrin, 2013, p. 827, tradução nossa, retirado dehttp://pediatrics.aappublications.org/content/131/4/827.full#sec-3).

2. É recorrentemente citado pelos detractores da lei da co-adopção um (!!!) estudo da autoria de Mark Regnerus. Trata-se de uma investigação com inúmeras falhas metodológicas. A título de exemplo, o autor comparou jovens provenientes de famílias heteroparentais “intactas” com jovens de famílias em que o pai ou a mãe tiveram uma relação com uma pessoa do mesmo sexo (destes últimos, apenas 10 viviam num lar homoparental “intacto”). Um desenho metodológico aceitável consistiria em comparar famílias heteroparentais “intactas” com famílias homoparentais “intactas”. Estudos que, aliás, já existem e cujos resultados vão novamente no sentido do consenso existente (ver, por exemplo, Farr, Forssell, & Patterson, 2010). Outra opção ainda, seria comparar famílias heteroparentais recompostas com famílias homoparentais recompostas (nas quais um dos progenitores tenha casado novamente). Concluindo, em bom português, o que Regnerus fez foi comparar alhos com bugalhos. Aliás, o próprio autor admite que não realizou um estudo nem sobre parentalidade, nem sobre orientação sexual. Nas suas palavras: “The study is not about parenting per se. There are no doubt excellent gay parents and terrible straight parents. (?) It’s not about sexual orientation, at least not overtly. There are many significant differences, but the study does not ascribe any causes for the differences (ver em http://www.patheos.com/blogs/blackwhiteandgray/2012/06/q-a-with-mark-reg…).

3. Considerar que o corpo sólido de investigação existente é fruto da imaginação de activistas ou seleccionar estudos com falhas metodológicas graves, utilizando–os como tentativa de invalidação desse corpo de investigação é bastante questionável. É que a dissensão é saudável, mas só quando é séria e rigorosa.

Jorge Gato
Psicólogo, Doutorado em Psicologia pela Universidade do Porto

in jornal i, 17 junho 2013

uma ideia »

  • António Casado acha:

    Apesar de considerar que este estudo poderia ter ido mais longe, o que aqui aparece descrito é de um rigor inquestionável. Não sou formado em área nenhuma – sou apenas um mero escritor de temática gay, sobretudo, e gay assumido. Dois exemplos clássicos que costumo apresentar e que o vou fazer aqui de uma forma simplista.
    Tenho um filho que viveu comigo durante anos. quando bébé dividia as tarefas com a mãe. Apesar de homossexual o meu filho é heterossexual, conhece de há muito a orientação sexual do pai e aceita-a, porque foi educado por mim a tolerar a diferença e a aceitá-la.
    Uma sobrinha, enquanto bébé, devido às más condições da mãe, era para ser entregue para adopção. Eu aceitei cuidar dela e responsabilizei-me perante o tribunal e o hospital, onde a fui buscar. entreguei-a à mãe passados tr~es anos porque consegui ensiná-la a cuidar da criança. questão: Se o tribunal soubesse que era homossexual ter-me-ia permitido cuidar da bébé? Será que as minhas competências detrioravam-se por esse facto? Pensem….

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