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A homofobia mata, sobretudo crianças

Submitted by on Saturday, 22 June 2013One Comment

mnica smallEstava eu no Michigan, preocupada com a erosão do respeito pela lei e pela separação dos poderes, quando li no PÚBLICO online umas declarações sobre o suposto trauma da adopção por casais do mesmo sexo.

A Academia Americana de Pediatras divulgou no corrente ano o seu apoio inequívoco ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, bem como à plena adopção de crianças por “todos os pais, independentemente da sua orientação sexual – como a melhor forma de garantir benefícios e segurança para os seus filhos”. Como é fácil de perceber, esta é sobretudo uma resposta a um facto consumado mas insuficientemente regulamentado: a adopção de crianças por pais homossexuais já aconteceu de uma maneira ou de outra. Por exemplo, há imensos indivíduos homossexuais que adoptaram sozinhos crianças, na perspectiva de depois as criarem em conjunto com um parceiro. O que os pediatras americanos estão a fazer é a reconhecer a necessidade de proteger os interesses destas crianças, tanto como os de todas as outras. Mas pensando ainda em todas as crianças à espera de serem adoptadas e em todos os pais potenciais para elas, a Academia Americana de Pediatras não deixa dúvidas: “Como um grande corpo de estudos científicos atesta, não há nenhuma relação causa-efeito entre a orientação sexual dos pais e o bem- estar das crianças.” E mais: “De facto, são muitos os estudos que confirmam o normal desenvolvimento das crianças de casais formados por pessoas do mesmo sexo, quando as crianças são desejadas e os pais assumem o compromisso de partilhar as obrigações parentais, ao mesmo tempo que recebem forte apoio social e económico.” Ou seja, estas famílias são como todas as outras.

Na América, o apoio ao casamento gay já ultrapassa, em todas as sondagens, os 50%. E este ano, pela primeira vez em dez anos de sondagens, a adopção por casais formados por pessoas do mesmo sexo já tem mais apoiantes do que oponentes. Esta não é uma vitória dos pediatras, dos psicólogos ou de quaisquer especialistas; e, sobretudo, não é uma vitória dos políticos. É a vitória das famílias assentes nestas relações que se deixaram ver pelas outras em toda a sua banalidade.

O que tenho lido no jornal sobre os diferentes papéis do pai e da mãe revela uma visão sexista que justifica o receio de muitas mulheres de casarem e terem filhos. O que ameaça a instituição do casamento são o machismo e a separação de papéis que por regra sobrecarrega as mães. É a violência doméstica, é a promiscuidade e é o abandono das responsabilidades familiares: problemas bem documentados entre homens em relações com mulheres.

O casamento e a família não são “naturais”, são evidentemente factos culturais, que sempre mudaram. Umas mudanças são melhores que outras. Por exemplo, já não é aceitável na nossa parte do mundo arranjar casamentos aos filhos ainda crianças. E na América só em 1967, ano em que nasci, passaram a ser possíveis os casamentos inter-raciais. Outra mudança que só pecou por tardar.

Uma recente campanha em Nova Iorque chamava a atenção das adolescentes para o facto de as crianças filhas de mães solteiras adolescentes terem estatisticamente más perspectivas de futuro. O clamor não se fez esperar. Qual a legitimidade de se estimular o sentimento de culpa ou de vergonha? Bom, o problema não é a culpa; a vergonha pode ter uma função social benéfica. Por exemplo, o racismo, a misoginia, a homofobia e todas as formas de crueldade devem ser motivos de vergonha. Não, o problema daquela campanha foi o de condenar apenas a irresponsabilidade sexual das raparigas, deixando de fora os homens. Isso é que é inacreditável. Já não há como negar as evidências: as famílias monoparentais estão associadas a pobreza e a depressão materna. Claro que não estamos a falar da advogada rica que adoptou a filha sabendo que podia contar com a mãe; ou da actriz de Hollywood que tem um batalhão de empregadas. Mas a grande maioria das mães solteiras tem uma vida muito pesada. Em todo o caso, estas mães fazem o que podem pelos filhos, o que é mais do que se pode dizer dos pais que saíram de cena. Há anos, vi na televisão uma campanha cujo lema era “tira algum tempo para ser um pai” e que se dirigia aos pais no masculino e os convidava a estar presentes na vida dos filhos. A crise do casamento e das famílias não resulta, decididamente, dos que, independentemente da sua sexualidade, querem assumir compromissos perante os parceiros e os filhos.

Como é que é invocado, contra a adopção por gays ou lésbicas, o argumento de que não seriam capazes de procriar naturalmente? Então os casais estéreis devem ser proibidos de adoptar? A primeira história que me vem à cabeça de uma família não assente na procriação é a de Maria, José e Jesus. O que faz esta história senão sacralizar a ideia de acolhimento através da união improvável entre uma adolescente e um velho? A defesa de um elo familiar não-natural volta depois, no fim da vida de Jesus, quando ele aproxima a mãe e o amigo, que se prepara para deixar para trás em sofrimento: “Mãe, este é o teu filho; filho, esta é a tua mãe”. Deste modo responde também à preocupação ancestral, que vemos em todos os textos sagrados, com as viúvas e os órfãos. Com a solidão e o desamparo.

Se na América já há uma maioria a favor do casamento gay e da adopção gay, esta maioria é ainda mais expressiva entre os americanos católicos, que conhecem bem o Livro do Levítico. Se os católicos deixaram, num certo ponto, cair a proibição de comer carne de porco, estão agora na sua maioria prontos para deixar cair uma convenção que o “Mandamento novo” tornou seguramente ainda mais obsoleta do que aquela proibição. Os católicos sabem que Jesus andou sempre com as chamadas “más companhias”. Mas, no caso dos pais do mesmo sexo, nem sequer têm de se lembrar de não excluir quem é diferente ou malvisto; vêem-nos todos os dias a levar os filhos à escola e a regar o relvado: nada de estranho.

Público, 22 de junho de 2012, por MÓNICA LEAL DA SILVA
Autora de A Crise, a Família e a Crise da Família (2012, FFMS)

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