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2 Mães, 1 Grande Amor

Submitted by on Wednesday, 14 October 2015One Comment

cristina-e-xanaComeçando pelas apresentações, somos a Alexandra (mãe não biológica) e a Cristina (mãe biológica), estamos juntas há 8 anos, casadas há 3 e este ano (2015) tivemos a nossa filha.
Antes de respondermos às perguntas, queria clarificar um assunto, que sinceramente, a todos os gays penso que incomoda. Normalmente quando dizemos que somos gays, as respostas que ouvimos é “Eu respeito a Opção de cada um”. Bem, ser gay não é uma opção, a não ser que ser hetero também tenha sido uma opção. Quando nascemos não decidimos, a partir deste dia sou gay! Somos e pronto, se pudéssemos escolher, nunca teríamos escolhido um caminho onde somos/ ou poderíamos ser renegados e mal tratados, não respeitados e tratados como pessoas de segunda.

Qual a vossa opinião sobre a legalização do casamento gay nos EUA?

Cristina Acho que o casamento gay devia ser legalizado em todo o mundo. Cabe a cada um ser feliz a sua maneira e decidir com quem casar. Por conseguinte, estou 100% de acordo com a legalização. Todos temos direito a felicidade.

Xana Bem, já existiam estados que o permitiam, esta legalização do casamento, foi mais para garantir que em todos os estados os cidadãos americanos tinham os mesmos direitos.
Mas existe uma grande diferença entre a legalização do casamento gay nos EUA em relação a Portugal, alias em todos os países onde é permitido o casamento gay é diferente de Portugal.

Portugal é um país que permite o casamento gay, mas não permite o conceito família num casamento gay, ou seja podemos casar, mas não podemos ter filhos biológicos nem adotar.

Para terem uma ideia estamos atrasados em relação à Espanha 27 anos em relação ao ter família, apesar de Portugal ter ser sido um dos primeiros países da Europa a permitir o casamento Gay.
Na nossa opinião, e se nos permitem ter, é um pais de hipócritas. Somos uma família no que respeita a economia, mas não somos família para tudo o resto.

O que sentem sobre a realidade portuguesa nesse aspecto?

Cristina O casamento já foi legalizado em Portugal há 5 anos quase mas ainda há muitas mentalidades retrógradas neste país. E por mais estranho que parece pertencem a pessoas com idades compreendidas entre os 18 e os 30 anos. Nós somos casadas e felizmente nunca nos sentimos mal tratadas, mas que há olhares há.

Xana Sinceramente envergonhamo-nos da atitude portuguesa!
Os pais não biológicos, não têm qualquer direito sobre o seu filho, aquele que planearam ter, aquele que amam e que os ama. Suponhamos que acontece algo aos pais biológicos, as crianças são entregues ao suposto familiar mais próximo, esse familiar mais próximo por norma são os avós. Que no caso de muitos casais Gays não têm qualquer contato com as crianças (porque não aceitam o filho/a ser gay e afastam-nos) e mesmo assim é um direito deles ficar com o “sangue do seu sangue”.

E como fica aquele que em conjunto com a sua mulher/marido tomaram a decisão de ter uma família? Como fica a criança? Afastada da família que conhece? Ficam afastados dos seus filhos? E Porque? Porque o estado decidiu que eles não podem amar? Não podem dar educação? Não podem criar um ser?

Porque ser gay impede de termos valores? De respeitar e ser respeitado?
Sabiam ainda que em caso da criança adoecer, a mãe/pai não biológico não tem direito a assistência à família? Não têm direito a estar com mãe biológica e com a filha após o seu nascimento? Temos de tirar férias, que podem ser aceites pela entidade patronal ou não.

Como foi a vossa decisão em serem mães?

Cristina Eu sempre quis ser mãe, a Xana não pensava muito nisso devido a opção de vida dela. Quando descobrimos que isso não era um problema não pensamos 2 vezes e começamos a juntar dinheiro para alcançar esse próximo passo na nossa vida de casal. Obviamente que pensamos muito devido à nossa sociedade e ao que a criança iria ter de suportar na escola. As crianças com a sua sinceridade por vezes magoam e sabemos que temos de ser fortes e educar a Maria a ser uma pessoa forte para saber lidar com as adversidades que a vida lhe vai apresentar, pois certamente nem toda a gente é compreensiva pelo fato de ela ter 2 mães e nenhum pai. Mas após muito pensarmos e falarmos decidimos tomar esse passo pois também
Temos direito a ter a nossa família.

Xana Não foi uma decisão fácil, porque sabíamos destas dificuldades todas e da posição fragilizada que a mãe não biológica ia ter, mas mesmo assim, a vontade de ter uma família falou mais alto. Todos os casais, sejam Gays/ heteros, chegam a uma fase da sua vida em conjunta e sentem falta de algo, algo que precisa de ser preenchido. Esta situação é tida normal num casal Hetero, porque é que num casal Gay, esta situação é considerada um capricho?

Muitas vezes durante estes anos ouvi esta palavra “capricho” na assembleia da republica, enquanto decidiam sobre se os casais gays podiam ter filhos ou co-adotar E claro que decidiram que não podíamos.

Nós sentíamos muito a necessidade de nos completarmos enquanto família e começamos a pesquisar o que poderíamos fazer, a nível económico quanto poderia ficar, o que diriam as nossas famílias e amigos, mas seguimos em frente de corações cheios à espera de que tudo corresse pelo melhor. Após 4 tentativas (inseminação) tivemos a nossa menina.

Sinceramente tudo o que passamos, estamos a passar e iremos passar, compensa quando olhamos para a nossa filha e contemplamos o seu sorriso e o seu olhar de menina que está feliz e é muito amada.

Quais os principais desafios que encontraram?

Cristina Os principais desafios foi que não é fácil e foi preciso 4 tentativas para termos a nossa bela Maria conosco. Monetariamente também não é fácil pois as Inseminacoes não são baratas e ainda acresce as viagens para controlar o crescimento dos óvulos. Nunca fui mal tratada pelo meu médico assistente no centro de saúde nem no hospital pelos médicos, enfermeiras e auxiliares. Nestes 5 meses de vida da Maria apenas me tenho sentido observada por ser mãe de uma bebê muito linda.

Xana Realmente os desafios são constantes.
Ir ao médico fazer uma Eco e perguntarem à mãe não biológica, se é a tia, prima, etc. do bebé.
Estar na maternidade a apoiar a minha mulher e perguntarem pelo pai, porque é que o pai não quere assistir ao parto. Existir comportamentos/ ou acharem que podem dizer que as nossas decisões/opções estão certas ou erradas. Ligar para a nossa seguradora e pedir para acrescentar um filho e perguntarem se não queremos colocar o pai também, dizer que quero colocar a minha mulher e o programa informático não o permitir.

Muitas coisas são ditas obviamente e temos de ter a capacidade de encaixar e não ser mal educadas com ninguém, apesar dessas pessoas poderem ser mal educadas connosco. A sociedade não esta preparada para a realidade atual.

Mas obviamente o maior desafio vai ser na educação da nossa filha, onde vamos ter de lhe dar muito apoio, acompanhamento, vamos ter de explicar muito bem as coisas, como ela nasceu.
Sabemos que vamos ter de a educar de modo aquela seja forte, que tenha um bom carater e que se saiba defender em relação à nossa sociedade, que às vezes com certos comentários podem por em causa a estabilidade emocional de uma criança.

in Mimami, 7 outubro 2015

uma ideia »

  • Liliana Fernandes acha:

    Parabéns pelo vosso testemunho 🙂 No mesmo ãmbito, desafio-vos a conhecer o meu livro infantil “Amor de Mãe Não Tem Número” 😉

    [www.chiadoeditora.com/livraria/amor-de-mae-nao-tem-numero]

    Beijinhos
    Liliana Fernandes

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