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2 mães, 1 filha. O amor em tempos de referendo

Submitted by on Tuesday, 21 January 2014One Comment
corcheiroVai fazer 11 anos que conheceu o Amor da sua vida.
Costuma dizer aos menos crentes, aqueles ainda não encontraram o seu grande amor, que quando tal acontece é como se o Universo congeminasse a seu favor, os “olhos da alma” reconhecem-se através de todos os sentidos… Até que verificamos que estamos a receber na mesma medida em que damos. E gera-se um equilíbrio perfeito.
À medida que organizavam a sua vida, o relógio biológico da Matilde acelerava, e quanto mais tentava regular os ponteiros, mais voltas eles davam. Não se pode dizer que seja muito fácil colocar duas cabeças em sintonia quando as opções são, todas elas, desvantajosas à partida. Perceber qual o melhor caminho leva tempo e o desconhecimento sobre situações como as delas levaram-nas a ponderar e a pesquisar muito. Pesquisaram sobre inseminação caseira, dador anónimo, adopção em Portugal, só em nome de uma delas, adopção no estrangeiro…
A inseminação caseira, que chegou a ser pensada como uma boa opção, foi-se aos pucos mostrando muito complicada, gerando demasiada fricção na relação. Nessa altura a Matilde sentiu que tinha de optar, o que despoletou um turbilhão de sentimentos. Ela não conseguiria abdicar do amor da sua vida, nem do seu outro amor, do amor por alguém que ainda só existia na sua imaginação, mas que já era tão grande no coração. A família só ficaria definitivamente completa a três. E desistiram da interferência de terceiros.
 Adoraram a ideia da adopção. Adoraram a ideia de poder salvar uma criança de uma vida desfeita e de tentar compensá-la da perda, com um lar repleto de amor e auto-estima… Mas a ideia de adoptar e correr o risco de voltar a ficar sem ela era aterradora. E se descobrissem que eram um casal!?
A adopção no estrangeiro ficou logo fora de questão, quando perceberam que que não tinham capacidade monetária para isso. Infelizmente não eram a Angelina Jolie ou a Madonna ou outro alguém muito famoso.
Também ficou sem efeito a possibilidade de um dador anónimo. É que a lei em Portugal não permite que a criança fique registada sem nome do pai .
Encontraram finalmente a solução em Espanha, que é um país considerado nestes casos como um verdadeiro paraíso, já que a lei permite que qualquer mulher engravide. Após um primeiro contacto, marcaram uma data e foram recebidas pelo director da clínica de braços abertos. Aperceberam-se que havia mais mulheres a passar pelo mesmo e sentiram-se em casa.
Após uma panóplia de exames físicos, sugeriram-lhes a Inseminação artificial e foi-lhes dito que a probabilidade de engravidar era muito baixa, muito baixa mesmo, que talvez só lá para a 10ª tentativa a Matilde conseguisse engravidar. Se mesmo assim não resultasse, passariam para a fertilização In vitro. Foram momentos de pânico, relembram. Mas decidiram seguir em frente sem olhar para trás. Seguiram-se as directrizes e regras a seguir. A primeira foi deixar de fumar, que não é assim tão fácil, que não foi mesmo nada fácil, assim, de repente. Depois injecções na barriga, viagens dia sim, dia não para controlar a evolução do tratamento, as hormonas completamente descontroladas, a ansiedade acumulada… E a primeira intervenção que falha.
A Matilde queria tanto estar grávida que se convenceu que estava de facto grávida e tinha todos os sintomas. Muito difícil. Mesmo.
 Trabalharam as expectativas, limparam a alma e voltaram para uma segunda tentativa.
E num dia de quase Primavera surge o tão esperado segundo risquinho… Não conseguiam acreditar. E naquele dia a Matilde conta que recebeu o abraço mais forte de toda a sua vida, mais bonito, mais sentido. Estava a começar tudo ali e estavam juntas neste caminho.
A Matilde e a Carolina foram muito mimadas pela mãe Olga, que fez tudo para que estivessem sempre confortáveis ao longo da gravidez. A Carolina nasceu e a Olga, felizmente, assistiu ao parto, segurou-a nos braços, chorou embevecida a olhar para ela, cheia de amor.
No dia seguinte, a Olga foi logo trabalhar (sim, há mães que não têm quaisquer direitos neste país), mas à hora de almoço ia a correr visitá-las e à noite ficava na maternidade até poder. E passou a fase da primeira semana, das primeiras semanas, a acordar de noite, a ajudar em tudo, sempre a trabalhar. Felizmente a mãe da Matilde foi uma ajuda preciosa e ela sente um enorme gratidão pela família que sempre a amou tanto e a apoiou em tudo, incondicionalmente.
A Carolina foi registada só pela Matilde, que teve de responder a um processo de averiguação do Ministério Público. Teve de entregar uma pasta com cópias de todas as justificações de presença na clínica, com cópias de todos os planos de tratamento e com cópias das facturas pagas… Ao fim de um mês recebeu uma carta de um juiz a indicar que não era possível avançar com o processo de averiguação e, como tal, o mesmo era encerrado.
Ela tem a guarda da filha a 100%, mas a criança não tem o mais importante, o reconhecimento legal da Olga como mãe.
Estas mulheres não conseguem aceitar que “referenciem” a sua vida, que interfiram em assuntos tão íntimos como os laços afectivos que cultivaram desde a primeira pesquisa, desde o primeiro contacto com a clínica, desde a primeira viagem, desde o primeiro momento de conhecimento da gravidez, desde a primeira eco, desde a primeira roupinha, desde o primeiro pontapé, desde a primeira contracção, desde o primeiro toque, desde o primeiro olhar… Não, não podem aceitar.
Não, não podem permitir que façam a sua filha pensar que é menos que os “outros”.
Sabem que agiram em consciência, como pessoas adultas que são. Só pedem o direito à Igualdade para elas e para a Carolina.
Não podem permitir que lhe “digam” que a mãe dela não é mãe dela. Não conseguem sequer imaginar que se acontece alguma coisa à Matilde (e aos pais da Matilde) a filha Carolina vai parar a uma instituição e não lhe seja dado o direito de ficar no aconchego da outra mãe que a quis tanto, que a criou também, que a amou sem limites, nem barreiras, nem medos. Porque o amor vence os medos. Porque o amor resiste aos preconceitos.
 Não, não podem de maneira nenhuma permitir esta deturpação dos afectos, esta total falta de respeito pelas novas configurações familiares.
A Carolina é o seu último grande Amor. Talvez o último dos últimos. Talvez o primeiro de muitos.
Sabem que agora têm este grande, enorme, amor das suas vidas consigo e que esse amor é completamente retribuído pela Carolina, com o seu sorriso rasgado, com o seu encosto, com o seu abraço, com a confiança que ela transmite. Esta confiança é tanta que derruba, logo à partida, qualquer dúvida, qualquer receio que possa existir. É ela que as fará sempre lutar. Até ao fim. Por amor. Pelo amor.
(publicado no blog a vida a 4d)

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  • Matilde acha:

    Obrigada pela partilha, esta é a nossa luta, o objectivo está delineado e juntas à restante família (a vocês) seremos mais fortes. Pelos amores das nossas vidas só temos um caminho a seguir: em frente.

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